22 de fevereiro de 2026
domingo, 22 de fevereiro de 2026

De Santa a “Cálice”: livro articula memória materna e canção de Chico Buarque

O lançamento do livro ‘De que me vale ser filha da santa’, marcado para o dia 1º de abril, insere um novo marco na trajetória da produtora cultural, escritora e educadora capixaba Thalia Peçanha, reafirmando sua atuação no campo da literatura e ampliando o alcance de uma pesquisa artística que vem sendo desenvolvida entre São Mateus, Aracruz e a Região Metropolitana da Grande Vitória. A obra, construída a partir de narrativas que atravessam memória, herança e corporeidade negra, evoca o nome de sua mãe, Santa, como ponto de partida para investigar pertencimento, religiosidade, silêncio familiar e continuidade histórica.

O título estabelece uma dupla referência: à mãe da autora e à frase da icônica canção Cálice, de Chico Buarque, ampliando o campo simbólico da obra ao conectar experiência pessoal e memória cultural brasileira. Entre relato, elaboração literária e reflexão, a escrita tensiona o que é legado, o que é ausência e o que se transforma em permanência, articulando experiência íntima e dimensão coletiva e afirmando a literatura como espaço de memória e sobrevivência.

Com atuação distribuída entre literatura, teatro, produção executiva e formação cultural, Thalia desenvolve projetos que conectam criação autoral e organização de redes independentes. Seu trabalho tem como eixo a articulação entre vivências locais e estruturas de poder que atravessam o estado, especialmente no que diz respeito às corporeidades negras e às disputas por representação simbólica.

A publicação integra um percurso literário que também se desdobra no teatro. Em 2024, teve montagem da peça Carambolas – Algumas Verdades em Memória de Dona Santa, obra que dialoga com memória ancestral e narrativas femininas. Além da produção individual, ela assina a coautoria da dramaturgia do espetáculo O Roubo do Sol, ampliando sua presença no campo das artes cênicas. Em seus textos, elementos íntimos se entrelaçam a contextos sociais mais amplos, propondo leituras que transitam entre subjetividade e estrutura histórica.

De Santa a “Cálice”: livro articula memória materna e canção de Chico BuarqueNo campo pedagógico, Thalia Peçanha conduz processos formativos e ações de mediação cultural que buscam aproximar criação artística e pensamento crítico. As atividades incluem oficinas, leituras públicas e experiências educativas voltadas a diferentes faixas etárias. Sua atuação educacional parte da compreensão de que o acesso à arte precisa ser acompanhado de reflexão e contextualização. Ao articular prática e análise, seus projetos investem na formação de público e no fortalecimento de repertórios culturais.

Entre as frentes que coordena está a Cafetinaria, produtora cultural dedicada à concepção, estruturação e execução de projetos artísticos e formativos. O trabalho envolve elaboração de propostas para editais públicos, planejamento financeiro, produção executiva e articulação de parcerias. A iniciativa atua principalmente no suporte a artistas e coletivos independentes, com atenção especial a pessoas dissidentes e grupos historicamente sub-representados. A proposta não se limita à viabilização pontual de projetos, mas busca estruturar condições de continuidade e circulação para iniciativas culturais no Espírito Santo.

Voltado ao público infantil, o Circuito Avessinho foi idealizado por Thalia como estratégia de fortalecimento da base cultural desde os primeiros anos de vida. O projeto reúne apresentações, oficinas e atividades artísticas que aproximam crianças de experiências criativas vinculadas ao território. A iniciativa investe na ampliação de repertório simbólico e na construção de vínculos culturais, entendendo a infância como etapa central na formação de público e na consolidação de uma cena artística diversa.

Coordenado por Thalia, o núcleo Elas Tramam completa dez anos de atuação no Espírito Santo. Formado por mulheres, pessoas trans e não-binárias, o coletivo se dedica à escrita e difusão de dramaturgias autorais produzidas no estado. Ao longo de sua trajetória, o grupo desenvolveu processos colaborativos de criação, promoveu leituras públicas e publicou cinco livros. O núcleo também recebeu reconhecimentos por práticas relacionadas à defesa dos direitos humanos da comunidade LGBTQIA+, consolidando-se como espaço de experimentação dramatúrgica e debate crítico.

No Centro de Vitória, o Espaço Cultural Má Companhia atua há 13 anos como território independente de pesquisa e produção artística. Coordenado por Thalia em parceria com Erica Vilhena, o local abriga ensaios, formações, leituras dramáticas e apresentações. Sede do Elas Tramam e da Repertório Artes Cênicas, o espaço se tornou ponto de encontro para artistas da cena capixaba. A manutenção de atividades continuadas ao longo de mais de uma década reforça a proposta de permanência e fortalecimento coletivo como estratégia de sustentabilidade cultural.

A atuação de Thalia reúne literatura, teatro, produção executiva e formação como dimensões interligadas. Ao trabalhar simultaneamente com criação autoral e organização estrutural de projetos, ela contribui para a consolidação de redes culturais no Espírito Santo. Sua trajetória evidencia uma prática que combina gestão cultural e investigação artística, articulando memória, território e construção de futuro como eixos permanentes de trabalho.

Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador Pesquisador Leena/UFES Mestrando em Artes/UFES

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