A partir de segunda-feira (5), o Mosteiro Zen Morro da Vargem, em Ibiraçu, recebe, dentro do Programa de Residências Artísticas 2025/2026, a artista visual Sheyla Ayo. Até o dia 25 a artista multidisciplinar e educadora, desenvolve uma pesquisa que transita entre desenho, pintura, fotografia e performance, articulando ancestralidade, espiritualidade afro-brasileira, memória feminina e relação com a natureza.
Sua prática artística afirma o corpo, os afetos e o território como campos simbólicos de cura, presença e resistência, especialmente no contexto das trajetórias negras em diáspora. Em seu trabalho, a arte se apresenta como espaço de reconexão entre saberes ancestrais, experiência espiritual e vida cotidiana, tensionando narrativas hegemônicas e propondo outras formas de sensibilidade e pertencimento.
Formada em Artes Visuais, com pós-graduação em Arte, Educação e Sociedade, Sheyla Ayo é também Omo Ifá – Apetebi no Isese Ile Ifa, condição que atravessa de maneira profunda sua poética e sua atuação pedagógica. A artista integra práticas espirituais, cosmologias africanas e processos educativos ao seu campo de criação, ampliando o entendimento da arte como prática de cuidado, escuta e transformação.
Ao longo de sua trajetória, Sheyla Ayo participou de importantes residências artísticas no Brasil, realizou ativações na Bienal de São Paulo e integrou a exposição “Dos Brasis”, do Sesc, além de apresentar trabalhos em instituições como Centro Cultural São Paulo, Sesc Pinheiros, Sesc Santana e Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro. Sua produção tem sido reconhecida pela potência simbólica e política, bem como pela delicadeza com que articula corpo, memória e espiritualidade.
Durante sua permanência no Mosteiro Zen Morro da Vargem, a artista desenvolverá um processo de criação imersivo, diretamente atravessado pela experiência do território e pelo diálogo com a tradição zen-budista do espaço. O período de residência culminará na realização de oficina e atividade pública abertas ao público, realizadas aos domingos, reafirmando o compromisso do programa com a partilha de processos e a formação cultural.
Ao inaugurar o calendário de residências de 2026, a presença de Sheyla Ayo reafirma a vocação do Mosteiro Zen Morro da Vargem como um território de criação, escuta e atravessamentos simbólicos, fortalecendo o Espírito Santo como referência em iniciativas que pensam a arte para além do objeto final, como experiência transformadora e relacional.
Contemplação da cultura
Localizado em meio à Mata Atlântica capixaba, o Mosteiro Zen Morro da Vargem consolida-se, ao longo dos últimos anos, como um dos mais singulares espaços de convergência entre arte contemporânea, espiritualidade e preservação ambiental no Espírito Santo. Reconhecido por sua atuação pautada no cuidado com o território e na promoção de práticas contemplativas, o mosteiro amplia seu papel cultural ao dar continuidade ao Programa de Residências Artísticas 2025/2026, iniciativa que transforma o espaço em um verdadeiro laboratório de criação, escuta e experimentação sensível.
Entre agosto de 2025 e março de 2026, o programa realiza sete residências artísticas — sendo seis individuais e uma coletiva — reunindo artistas de diferentes regiões, linguagens e trajetórias. A proposta é oferecer tempo, espaço e condições para que cada residente desenvolva uma investigação autoral em diálogo profundo com o ambiente natural, com o silêncio e com a experiência de desaceleração que o mosteiro proporciona.
Inserido em um mosteiro zen-budista da tradição Soto Zen, o programa se diferencia por propor uma ruptura com a lógica produtivista que marca grande parte do circuito artístico contemporâneo. Aqui, o processo ganha centralidade, e a criação se constrói a partir da convivência cotidiana, da atenção aos ciclos da natureza e da presença plena no tempo presente. O fazer artístico passa a ser compreendido como prática ética, espiritual e relacional.
Durante o período de residência, os artistas contam com acompanhamento da equipe do Mosteiro Zen Morro da Vargem, mantendo total liberdade poética e conceitual. A paisagem, os sons da mata, a rotina do mosteiro e as práticas meditativas tornam-se elementos constitutivos dos processos criativos, ampliando reflexões sobre arte, ecologia, espiritualidade e modos de existir no mundo contemporâneo.
Um dos eixos fundamentais do Programa de Residências Artísticas é o compromisso com o acesso público à cultura. Como contrapartida, os artistas residentes realizam oficinas abertas, conversas, visitas guiadas, ativações ou apresentações performativas, sempre aos domingos. Essas ações fortalecem o vínculo com a comunidade local, promovem o intercâmbio de saberes e transformam o mosteiro em um espaço vivo de formação, encontro e partilha.
O Programa de Residências Artísticas 2025/2026 é uma realização do Mosteiro Zen Morro da Vargem e da Atmo Produções Culturais, por meio da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), do Governo do Estado do Espírito Santo / Secretaria de Estado da Cultura, com patrocínio da EDP. A iniciativa reafirma a importância das políticas públicas de fomento à cultura e do investimento privado em projetos que articulam arte, educação e sustentabilidade.











