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Independente de Boa Vista leva o congo à avenida e exalta a identidade capixaba

O Sambão do Povo foi tomado por fé, ancestralidade e identidade na apresentação da Independente de Boa Vista, no Carnaval 2026. Com um desfile de forte densidade cultural, a escola reafirmou seu protagonismo ao levar para a avenida um enredo que reconhece o congo como uma das matrizes mais profundas da formação capixaba.

Assinado pelo carnavalesco Cahe Rodrigues, o tema apresentou o congo não apenas como manifestação folclórica, mas como um sistema vivo de memória, fé e resistência, construído na travessia forçada dos povos africanos, no diálogo com saberes indígenas e nas devoções populares que atravessam gerações. A narrativa transformou a avenida em território simbólico, onde tradição e presente caminharam juntos.

Entre os torcedores, o sentimento era de orgulho. A auxiliar de enfermagem Patrícia Almeida, 38 anos, acompanhava o desfile com a camisa da escola e os olhos marejados. “A Boa Vista fala da nossa história, da nossa fé, daquilo que a gente vive no dia a dia. Não é só carnaval, é identidade. Ver o Congo assim, grandioso na avenida, arrepia.”

No centro do enredo, a figura de João Bananeira surgiu como personagem símbolo dessa identidade coletiva. Brincante, irreverente e profundamente político, ele ocupa a rua como espaço de liberdade e transforma a alegria em gesto de resistência. Quilombos, terreiros, bandas de Congo, festejos, marcos legais de reconhecimento e devoções como São Benedito e Nossa Senhora da Penha costuraram um desfile que afirmou: o Congo segue vivo porque é praticado todos os dias pelas comunidades.

A emoção também estava no rosto de quem desfilava. Júlio César Caran, que participou pela primeira vez de um desfile da Boa Vista, descreveu a experiência como intensa e transformadora. “É uma emoção danada, uma adrenalina e uma ansiedade muito grandes. Na hora que a gente entra, o cansaço vai todo embora. Apesar do peso da fantasia, a gente consegue fazer uma entrega bonita, com samba no pé. As expectativas são as melhores possíveis. A escola está linda, os carros estão muito bonitos e tudo muito organizado.”

Na arquibancada, o motorista Rogério, 45 anos, torcedor da escola desde criança, vibrava a cada evolução. “Eu cresci vendo a Boa Vista desfilar. Quando ela entra cantando Congo, a gente sente que é Cariacica inteira passando ali. É tradição, é resistência, é a nossa voz sendo ouvida.”

Veterano na escola, Giliard de Souza, integrante pelo terceiro ano consecutivo, também destacou a preparação para o espetáculo. “A expectativa é a melhor possível. Os ensaios foram bem cansativos, mas necessários pra entregar tudo o que a avenida vai ver hoje. Pode esperar um show, porque a gente veio pra surpreender.”

Pouco antes da entrada na avenida, a musa Wanuza Luiza traduzia o clima nos bastidores. “A ansiedade é enorme, o coração fica acelerado. A gente ensaia muito, se prepara o ano inteiro, e quando chega esse momento dá um frio na barriga. Mas é uma ansiedade boa, de quem acredita no trabalho. A escola está lindíssima, os carros, as luzes, os detalhes… Tenho certeza que vamos levar muita cultura, muita arte e contar essa história com verdade.”

À frente da agremiação, o presidente Emerson Xumbrega, que ocupa o cargo desde 2011 e atua como intérprete oficial desde 2001, ressaltou o planejamento de longo prazo e o orgulho da comunidade. “A gente vem fazendo um bom trabalho, com humildade e muita fé em Deus, em Nossa Senhora da Penha e em São Benedito. O povo de Cariacica tem samba no pé e sabe fazer carnaval. Esse resultado é fruto de um planejamento feito anos atrás, que hoje começa a ser colhido. A Boa Vista entra na avenida pra cantar forte e mostrar esse espetáculo.”

O sentimento de pertencimento também era compartilhado por quem acompanha a escola geração após geração. A estudante Larissa Monteiro, 22 anos, resumiu a emoção da torcida. “A Boa Vista representa quem a gente é. Ver esse enredo na avenida dá vontade de cantar mais alto, de defender a escola com o coração. É orgulho demais.”

Com uma trajetória marcada por enredos que dialogam com a memória, a cultura e o papel social do carnaval — incluindo homenagens a cidades capixabas, manifestações populares, personalidades como Elisa Lucinda, lideranças históricas como Nelson Mandela e o título de 2025 em tributo ao fotógrafo Sebastião Salgado — a Independente de Boa Vista consolidou mais uma vez sua identidade como escola que educa, emociona e fortalece o sentimento coletivo.

No Sambão do Povo, a Boa Vista não apenas desfilou: afirmou suas raízes, celebrou sua gente e transformou o Congo em voz alta, viva e pulsante da cultura capixaba — ecoando não só na avenida, mas no coração de sua torcida.

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