A Chegou o Que Faltava levou para a passarela do samba um projeto que dialogou diretamente com espiritualidade, consciência e escolhas humanas, reafirmando sua maturidade artística no Carnaval capixaba e o desejo de alcançar um feito inédito em sua história.
Com as cores azul, rosa e branco, a escola apresentou o enredo “Orí – Sua Cabeça é Seu Guia”, inspirado na cosmovisão iorubá. A proposta convidou o público a refletir sobre a importância da saúde espiritual, mental, emocional e física como base para as decisões do cotidiano.
O desfile mostrou a cabeça humana não apenas como um elemento anatômico, mas como um centro de sentidos, inteligência, memória e imaginação, capaz de conectar passado, presente e futuro por meio da ancestralidade.
Sob a presidência de Rafael Siqueira Cavalieri, a Chegou o Que Faltava contou com uma bateria comandada pelos mestres Alcino Júnior e Jorge Borges, que sustentaram o ritmo do desfile com precisão e energia.
À frente da bateria, a rainha Thalita Zampirolli se destacou pela presença cênica e pela sintonia com a proposta do enredo. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Vinícius Couti e Amanda Ribeiro, conduziu o pavilhão com leveza, elegância e firmeza coreográfica.
O trabalho do carnavalesco Roberto Monteiro marcou o Carnaval da agremiação, ao conduzir a escola em uma leitura sensível e conceitual, fundamento da existência na cultura iorubá.
A apresentação traduziu para a avenida a ideia de que, no ser humano, a cabeça ultrapassa o biológico e se torna o espaço onde habitam o consciente e o inconsciente, a razão e a fé, consolidando um desfile que uniu estética, filosofia e ancestralidade.
Integrante de uma das alas, Rosemary Coelho destacou o simbolismo do enredo e a força do acolhimento da escola. “O enredo falou sobre a intelectualidade negra no Espírito Santo. Tem pessoas ali que fazem a história do movimento negro, e foi um privilégio compor essa ala. Orí é a cabeça, onde a intelectualidade se desenvolve. Mesmo não pertencendo à comunidade, fui muito acolhida, participei dos ensaios e vi uma escola muito bonita. No ano passado veio o vice, e neste ano fomos pras cabeças”, afirmou.
O diretor de harmonia, Jhonatha Luiz, ressaltou o significado cultural do tema e o sonho do título. “O bonito foi mostrar como essa cabeça é criada, alimentada e qual herança ela deixa para as gerações futuras. Entramos com três alegorias belíssimas e uma escola grandiosa, com muita vontade de vencer”, destacou.
O presidente da escola, Rafael Siqueira Cavalieri, enfatizou a mobilização da comunidade e o crescimento da escola. “A comunidade esteve em peso. Cerca de duas semanas antes do desfile, todas as fantasias já estavam esgotadas. Nunca tivemos uma procura tão grande, fruto de um trabalho de formiguinha, ano após ano, buscando melhorar e crescer. A escola estava grande, luxuosa e, como o próprio enredo diz, fomos pras cabeças. Viemos para brigar”, declarou.
Representando a bateria, o Mestre Alcino Júnior reforçou a força rítmica da escola na avenida. “Viemos com muita força. A bateria entrou com cento e oitenta ritmistas, com garra para buscar o título. Tivemos atabaques neste ano, um enredo afro, e fomos para cima atrás de um título sonhado, o primeiro título de Goiabeiras”, afirmou.
Na plateia, a emoção também foi destaque. A foliã Rose Silva, de 45 anos, acompanhou o desfile e ressaltou o impacto da apresentação. “Foi um desfile que mexeu com a gente. Não foi só bonito, foi profundo, fez pensar. A Chegou o Que Faltava emocionou e mostrou que samba também é consciência e ancestralidade”, comentou.











