O avanço do descomissionamento de ativos da indústria de óleo e gás, processo que envolve a retirada de operação de plataformas e estruturas ao fim de sua vida útil, começa a reposicionar o Espírito Santo no mapa de oportunidades da cadeia energética, com impactos diretos ainda em definição sobre o mercado de trabalho. A Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) afirma que o estado se antecipa a outras unidades da federação na preparação para esse novo ciclo.
Segundo o presidente da entidade, Paulo Baraona, a estratégia capixaba parte de uma visão estruturada do setor, com foco na atração de empresas e na formação de mão de obra especializada. “A nossa visão disso é uma visão global sobre o negócio em si. Uma das primeiras coisas que nós fizemos foi entrar em contato com universidades, especialmente do Reino Unido, e o nosso Senai já está fazendo um convênio com a Universidade de Aberdeen, na Escócia, exatamente para começar a qualificação da mão de obra”, afirmou, durante coletiva de imprensa na manhã desta quarta-feira (18).
O descomissionamento é considerado uma etapa inevitável da indústria petrolífera, acionada quando campos deixam de ser economicamente viáveis ou quando as estruturas chegam ao fim da vida útil. No Brasil, o movimento ganha escala: já são 26 projetos aprovados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), com investimentos estimados em cerca de R$ 5 bilhões, segundo dados citados pela Findes.
Apesar do potencial, o impacto direto sobre o emprego ainda carece de mensuração mais precisa. “Ainda não temos muita noção da quantidade, porque é um negócio que exige muita tecnologia. Estamos todos aprendendo um pouco sobre isso, mas existem muitas oportunidades”, disse Baraona. Ele ressalta que a complexidade técnica da atividade exige planejamento semelhante ao de implantação de novas indústrias. “Não há como atrair empresas se não tivermos uma base sólida que dê segurança para se instalarem aqui”.
Para acelerar essa estruturação, a Findes firmou parceria com a Decom Mission, organização sediada na Escócia que atua no desenvolvimento da cadeia global de descomissionamento. O acordo prevê intercâmbio técnico e apoio na compreensão das demandas logísticas, tecnológicas e regulatórias do setor.
A aposta também se ancora na base industrial já instalada no estado, especialmente nos segmentos metalmecânico e de serviços industriais. “Nós tivemos uma boa escola nos últimos 20 anos, com grandes projetos industriais, e hoje temos empresas que atuam em plantas no Brasil inteiro. Isso nos dá uma base importante”, afirmou o presidente da Findes.
O tema será aprofundado no Fórum Internacional de Descomissionamento da Findes, marcado para os dias 25 e 26 de março, com a presença da presidente da Petrobras, Magda Chambriard. O evento reunirá especialistas, empresas e representantes do setor público para discutir oportunidades e desafios da atividade no país.
Na avaliação da federação, embora todos os estados brasileiros ainda estejam em estágio inicial nesse mercado, o Espírito Santo busca sair na frente ao estruturar um ambiente de negócios capaz de atrair investimentos. “Todos estão começando do zero, não tem ninguém muito à frente. Eu acho que estamos um pouquinho na frente, mas isso ainda está em construção”, disse Baraona.
A consolidação desse novo segmento pode criar uma cadeia produtiva relevante, mas exigirá qualificação intensiva e adaptação de empresas locais. Entre a promessa de novos investimentos e a incerteza sobre a geração efetiva de empregos, o descomissionamento se desenha como uma das próximas fronteiras da economia industrial capixaba.









