Após 2025 de juros nas alturas, o mercado imobiliário brasileiro projeta para 2026 um cenário de recuperação, impulsionado por um pacote de medidas governamentais e uma expectativa de queda gradual da taxa dos financiamentos.
“A expectativa é crescer nas vendas de imóveis [no volume de unidades]. Temos capacidade de crescer 10% em 2026, apesar da taxa de juros alta, porque a demanda continua crescendo, e as pessoas, comprando imóveis”, afirmou Renato Correia, presidente da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), à reportagem.
No acumulado de janeiro a novembro do ano passado, segundo a Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), os financiamentos somaram R$ 140,1 bilhões, uma queda de 17,1% em relação ao mesmo período de 2024. A expectativa da Cbic é que, com as novas regras, R$ 37 bilhões sejam injetados no crédito habitacional em 2026.
O destravamento, porém, não deve se dar de forma uniforme. Enquanto o programa Minha Casa, Minha Vida segue batendo recordes, o crédito para a classe média ainda tenta encontrar fôlego diante de um custo de financiamento que excluiu milhares de famílias da casa própria.
O segmento de médio e alto padrão é o que mais sofre com a taxa de juros. Enquanto o Minha Casa, Minha Vida deve bater recorde de 600 mil unidades vendidas, os contratos fechados com recursos da poupança (SBPE, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) caíram mais de 20% em 2025.
De acordo com estudo da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), a alta dos juros nos últimos cinco anos excluiu 800 mil famílias do acesso ao crédito para imóveis de R$ 500 mil.
O impulso pode vir do novo modelo de crédito imobiliário anunciado pelo governo federal, que foi desenhado para ampliar a oferta de financiamentos, especialmente para a classe média.
Neste ano são liberados 5% do compulsório da poupança , o que, segundo a Abrainc, vai injetar no SBPE cerca de R$ 35 bilhões adicionais no crédito habitacional.
Além disso, a atualização do teto do SFH (Sistema Financeiro de Habitação) – de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões, após sete anos sem correção – vai se refletir tanto em compradores que querem usar o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) na entrada do imóvel.
Esse novo teto também pode impulsionar o crédito habitacional pelo lado do uso do FGTS. As regras recém-lançadas ampliaram os limites de uso para entrada, amortização ou quitação de financiamentos.
Para a Abrainc, essas iniciativas criam condições mais favoráveis para o segmento de médio e alto padrão, que é mais dependente do crédito imobiliário para a compra do imóvel. De acordo com pesquisa da Brain Inteligência Estratégica, a intenção de compra nesse público chega a 48%. Porém, a alta taxa para contratar financiamento tem sido grande entrave.

TAXA DE JUROS
Segundo Luiz França, presidente da Abrainc, um estudo da entidade mostra que cada ponto percentual de queda na Selic tem o potencial de incluir 160 mil novas famílias no mercado de financiamento.
A expectativa de especialistas é que 2026 seja um ano de transição, com mais crédito disponível, mas sem o salto transformador que muitos no setor esperavam. Pelo menos, até que a Selic caia de fato.
O Copom (Comitê de Política Monetária) fechou 2025 com a taxa básica de juros em 15% ao ano – no nível mais alto em quase duas décadas. O mercado espera queda de juros ao longo de 2026.
“Quando os juros caem, o setor acelera; quando os juros permanecem elevados, o ritmo de crescimento diminui”, afirmou Eduardo Zaidan, vice-presidente do SindusCon-SP, em evento do setor no início de dezembro.
Há ainda a faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida, criada para atender a parcela da população que ficou espremida entre os programas habitacionais e o crédito de mercado. A modalidade combina uso do FGTS, prazos mais longos e taxas inferiores às praticadas no crédito livre, além de permitir financiar imóveis de valor mais alto.
Entidades do setor, como a Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) e a Cbic, avaliam que a faixa 4 tem potencial para destravar a demanda reprimida nas grandes cidades, mas dizem que seu alcance dependerá da adesão efetiva dos bancos e da capacidade de manter juros competitivos; sem isso, o risco é a nova faixa se transformar mais em sinalização política em ano eleitoral do que em uma solução para o déficit habitacional.
Correia, da Cbic, diz que o ano de 2025 foi “robusto” para o mercado imobiliário, mas há gargalos estruturais para 2026.
“Além da taxa de juros, a competição pela mão de obra continua bastante demandada e o grande problema que eu vejo é que vamos entrar numa industrialização, mas o processo de registro, a aprovação de prefeitura, essa dinâmica [burocracia] ainda não acompanha”, disse Correia.
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – ANA PAULA BRANCO











