18 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Por fé ou tradição, entenda a troca de carne por peixe na Quaresma

Depois da folia, vem o silêncio, a reflexão — e a mudança no prato. Com o fim do Carnaval, milhares de capixabas retomam uma tradição que atravessa séculos: reduzir ou cortar o consumo de carne durante a Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa no calendário cristão.

A própria origem da palavra Carnaval ajuda a entender o costume. Do latim carne vale — “adeus à carne” —, o termo remete ao último momento de celebração antes do tempo de penitência, jejum e preparação espiritual vivido por católicos e outras denominações cristãs.

A aposentada Maria Athaýde, moradora da Grande Vitória, mantém o ritual por fé.
“Eu não como carne durante toda a Quaresma. É um dos meus sacrifícios”, conta.

Na casa dela, a tradição é adaptada à rotina familiar. “Meu esposo e meus filhos evitam carne vermelha e até frango às quartas e sextas-feiras. Nesse período, a gente passa a consumir mais peixes, frutos do mar e ovos”, explica.

Tradição que atravessa – até religião

O costume não se limita aos praticantes do catolicismo. Também é observado por fiéis anglicanos, ortodoxos e luteranos — e até por quem não segue religião alguma.

É o caso do servidor público Neuzito Teixeira, que segue o hábito herdado da família.
“Meus pais sempre fizeram isso. Na Quarta-feira de Cinzas, por exemplo, o almoço é bacalhau. Ao longo desses 40 dias a gente reduz o consumo de carnes e aumenta o de pescados. E na Semana Santa não falta Torta Capixaba e moqueca”, relata.

A Quaresma surgiu nos primeiros séculos do Cristianismo como um período de preparação para o batismo e para a Páscoa, inspirado nos 40 dias em que Jesus teria jejuado no deserto. Hoje, além do significado religioso, o período também provoca reflexos culturais, econômicos e até nutricionais.

Jejum, saúde e escolhas alimentares

Historicamente, a carne é evitada na Quaresma por estar associada a banquetes e celebrações. Abrir mão dela simboliza renúncia e autocontrole. Mas a mudança no cardápio também pode trazer benefícios à saúde.

Segundo a nutricionista Fernanda Nascimento Hermes, o consumo ideal de peixe é de cerca de três vezes por semana. “Para quem não tem esse hábito, incluir peixe ao menos uma vez por semana já traz benefícios importantes”, orienta.

Ela recomenda preparações mais saudáveis. “O ideal é assar ou grelhar, usando pouco óleo. Frituras reduzem nutrientes e aumentam o teor de gordura, o que pode prejudicar a saúde”, alerta.

Peixe já é a principal proteína animal do mundo

Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) mostram que o pescado já responde por 51% do consumo global de proteínas de origem animal. A produção mundial ultrapassou 185 milhões de toneladas, com a aquicultura sendo responsável por mais da metade desse volume.

Desde a década de 1960, o consumo per capita mundial mais que dobrou, passando de 9,1 quilos para 20,7 quilos por pessoa ao ano em 2022. A expectativa, segundo estimativas do IFC Brasil, é que até 2030 o mundo precise de mais 24 milhões de toneladas de pescado por ano para atender à demanda crescente.

Nem todo peixe é igual: quais são os mais nutritivos?

Por fé ou tradição, entenda a troca de carne por peixe na QuaresmaA nutróloga Juliana Couto Guimarães explica que existem diferenças importantes entre as espécies, principalmente em relação ao teor de ômega-3, gordura essencial para a saúde do coração e do cérebro.

“Peixes gordos ou de água fria são mais ricos em EPA e DHA, as formas biologicamente ativas do ômega-3”, explica. Entre eles estão salmão, sardinha, atum, cavalinha e arenque.

Espécies como tilápia, pescada e linguado têm menor teor de ômega-3, mas continuam sendo boas fontes de proteína, vitaminas e minerais.

Quando se leva em conta valor nutricional, custo e acesso, a sardinha se destaca.
“Ela é rica em ômega-3, fornece cálcio quando consumida com a espinha, tem vitamina D e apresenta menor risco de contaminação por metais pesados”, ressalta a especialista.

Entre fé, cultura e saúde

Por devoção religiosa, tradição familiar ou escolha consciente, a Quaresma segue influenciando hábitos alimentares no Espírito Santo — conectando fé, cultura capixaba e saúde em um mesmo período do ano.

E, para muitos, a mudança no prato vai além do simbolismo: acaba sendo um convite à reflexão sobre consumo, equilíbrio e escolhas mais conscientes.

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