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13 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026

As crianças com TEA de hoje serão os adultos de amanhã: estamos preparados para vê-los existir?

Eles cresceram. A geração de crianças diagnosticadas nas últimas décadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) está chegando à vida adulta, mas o Brasil ainda fala de autismo como se ele tivesse data de validade: dos primeiros sinais até o fim da infância. As políticas públicas, os serviços de saúde, a escola, os espaços de lazer e até o mercado de trabalho seguem estruturados para acolher o início da jornada, mas parecem ignorar o que vem depois.

Enquanto algumas empresas falam em diversidade, o mercado ainda opera com baixa compreensão sobre o TEA na vida adulta. Para muitos, a contratação é somente uma obrigação de cumprir cota.

“Tem empresa que só se lembra do autista no dia da conscientização”, conta Igor Valim Sarmento, de 32 anos, autista e servidor público na Prefeitura de Cariacica. Seu diagnóstico veio tardiamente, em 2020, mas sua trajetória profissional começou aos 18.

“Nunca encontrei um RH preparado para receber um autista, mas me mantive porque queria ser reconhecido pelo meu trabalho, não pela minha condição”.

Igor fala com maturidade sobre o que exatamente um ambiente de trabalho precisa fazer para incluir de verdade: “Às vezes tudo o que precisamos é de um espaço mais silencioso ou de alguém que esteja disposto a explicar uma tarefa com clareza. Não é sobre incapacidade. É sobre ajuste e respeito”.

O medo que mães e pais sentem após o diagnóstico não desaparece com o tempo. Ele muda de forma. Se antes era medo do futuro, hoje é medo da ausência.

As crianças com TEA de hoje serão os adultos de amanhã: estamos preparados para vê-los existir?

“Falamos tanto em intervenção precoce, em diagnóstico na infância, mas esquecemos que essas crianças se tornam adolescentes, jovens, adultos e idosos”, afirma Pollyana Paraguassú, presidente da AMAES – Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo e mãe de um jovem autista de 22 anos.

“O que vejo, na verdade, é uma morte social. Meu filho existe, mas muitas vezes é tratado como se não estivesse ali. Ele nunca foi convidado para uma festa, nunca teve amigos. É como se sua existência fosse tolerada, mas não validada.”

A AMAES acompanha centenas de famílias que enfrentam o mesmo dilema. Mesmo com avanços legais como a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), o cotidiano ainda é marcado por barreiras atitudinais e pela falta de preparo da sociedade para lidar com adultos autistas, em especial aqueles que precisam de níveis maiores de suporte.

O que hoje é visto como assistência social, a AMAES enxerga como construção de cidadania e impacto econômico. Um adulto com TEA incluído social e profissionalmente é alguém que produz, paga impostos, circula renda e vive com autonomia.

O número de diagnósticos vem crescendo: há poucos anos, estimava-se 1 autista a cada 168 nascimentos. Os últimos dados, divulgados em 2020 pelo órgão de saúde Centers for Disease Control and Prevention (CDC), apontam para 1 a cada 36 diagnósticos. “Esses jovens já estão entre nós. O que falta não é diagnóstico. É lugar social”, resume a presidente da AMAES.

A associação, que há mais de 20 anos atua como referência em atendimento, orientação e defesa de direitos das pessoas com autismo e suas famílias no Espírito Santo, reforça que a inclusão não é uma política assistencialista, mas um compromisso ético. “Não queremos piedade. Queremos existência validada”, afirma Pollyana.

Thauane Lima
Thauane Lima
Bacharel em Jornalismo pela UFES

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