Mulher, esposa, mãe, sogra, marisqueira. Ela faz parte do grupo de mais de 50 mulheres que atuam em frente a um projeto que além de protagonismo feminino e agricultura orgânica, beneficia a comunidade de Mangue Seco. Olívia Benedita Sardanha e a família mudaram a vida por meio da pesca de mariscos.
Por meio do Instituto Goiamum inauguram o Projeto Sururu que transforma descarte do marisco em solução para o solo e para comunidades pesqueiras em uma iniciativa pioneira na Serra, a marisqueira conta que a vida mudou desde 2011 quando entrou para pesca.
“Eu entrei na pesca em 2011 quando me mudei para Vitória. Eu já observava as meninas tirando sururu e decidi entrar na profissão de marisqueira, e com o projeto só me aproximei e me encantei mais.”

Olívia conta que além dela, outros integrantes da família também pescam e estão atuando como marisqueiros. “ Eu tenho o meu menino mais velho que é pescador, marisqueiro, tem minha nora que também é marisqueira e meu filho mais novo antes de mudar de profissão também estava na pesca”, disse.
Além da renda, o marisco deu orgulho. “Me tornar marisqueira e estar nesse projeto mudou minha vida! Hoje sinto que sou reconhecida, ser reconhecida como pescadora, tenho e reconheço meu direitos, me sinto útil e honrada nas nossas lutas. Além disso, a minha expectativa de vida mudou, financeiramente tenho condição de ter meu sustento e ajudar minha família, Tudo isso me gera muito orgulho.”
Projeto sururu que transforma descarte de mariscos em solução para o solo
Segundo o Diretor Presidente do Instituto Goiamum, Iberê Sassi, o Projeto Sururu pode servir como ferramenta de mobilização comunitária e educação ambiental, reforçando a percepção do valor ecológico e econômico do mangue. Ele conta que as cascas descartadas de forma inadequada acumulam à margem dos manguezais provocando seu assoreamento, além de mau cheiro, proliferação de insetos o que impacta diretamente a vida de comunidades ribeirinhas.
“O reaproveitamento desse material evita que esses resíduos cheguem ao ecossistema, reduzindo o impacto direto sobre o solo e a água. Quando transformadas em insumo para a produção de corretivo agrícola, as cascas deixam de ser lixo e passam a gerar renda (porque compramos das marisqueiras cadastradas no projeto), diminuindo a pressão sobre os manguezais como fonte primária de recursos.”

Iberê frisa ainda que, o projeto promove a valorização do resíduo além de diminuir a pressão antrópica. “Ao oferecer alternativas econômicas ligadas ao reaproveitamento das cascas, comunidades que vivem próximas ao mangue reduzem a dependência da extração predatória de madeira, caranguejo e outros recursos, equilibrando o uso sustentável do ambiente.”
Resíduo vira matéria-prima
De acordo com o presidente, o aproveitamento transforma um resíduo (Passivo Ambiental) em matéria-prima, possibilitando o arranjo da Economia Azul. “Isso fortalece práticas ambientais corretas e conscientiza a população sobre a importância de conservar os manguezais”, destacou.
Em relação aos resultados, Sassi ressalta que já existe uma redução visível da poluição local. “Percebemos a diminuição do acúmulo de cascas em áreas de mangue e entorno, melhorando a qualidade do solo e da água. Incluindo no próprio entorno das marisqueiras, melhoria na saúde do ecossistema, sabendo que o manguezal poderá se regenerar devido a não existência de cascas o que impede que o propago (semente do mangue) se fixe na lama, menor risco de mortandade de peixes, crustáceos e plantas devido à decomposição inadequada dos resíduos”, disse.

Ele completou ainda que a comunidade local segue engajada em práticas sustentáveis com valorização do manguezal como patrimônio natural, além de dar visibilidade a marisqueiras catadoras de sururu antes invisíveis ou chamadas de mulheres sujas. “Vimos ainda a criação de cadeias produtivas sustentáveis: Uso das cascas na agricultura, em conjunto com agricultores orgânicos sendo um produto de valor agregado inestimável já que contém sais minerais sendo que o concorrente não dispõem destes produtos em sua fórmula.”
Confiante no projeto, Iberê Sassi, frisa que a equipe pretende expandir no futuro. “ O projeto é totalmente replicável. Inclusive, já estamos em diálogo com algumas prefeituras para definir a melhor forma de adaptação em cada região. Caso outros gestores públicos tenham interesse, também podem nos procurar para viabilizar a implantação do projeto em seus municípios”, citou.
Protagonismo feminino
O presidente evidencia que o Projeto Sururu é totalmente inclusivo e fortalece o protagonismo feminino em Mangue Seco ao valorizar o trabalho das marisqueiras, possibilitando maior visibilidade e novas oportunidades de geração de renda.
“Essas mulheres, que historicamente sempre ocuparam um papel central na coleta e no beneficiamento do sururu, agora passam a conquistar espaços de destaque na comunidade, sendo reconhecidas e assumindo voz ativa nas decisões coletivas. Além de promover a preservação ambiental, o projeto resgata a cultura e a ancestralidade ligadas ao mangue, transformando um movimento antes invisibilidade em uma referência de identidade, autonomia e empoderamento feminino.”

Atualmente o Projeto Sururu conta com mais de 50 marisqueiras envolvidas, promovendo renda extra a essas mulheres. “Com novos recursos, essas mulheres podem complementar o sustento da família, melhorar as condições do seu próprio negócio devido a parceira com Sebrae que auxiliará elas neste processo, investir na educação dos filhos, e conquistar maior independência financeira. Mais do que dinheiro, essa oportunidade traz dignidade, reconhecimento e abre caminhos para que elas sejam protagonistas de suas próprias histórias, rompendo ciclos de vulnerabilidade e fortalecendo toda a comunidade.”
Além da coleta e processamento do material, existe ainda ações de capacitação para as marisqueira. Se trata de uma parceria com o Sebrae, no qual a equipe oferece consultorias que auxiliam as marisqueiras a aprimorar a apresentação de seus produtos, aprender a utilizar as redes sociais como ferramenta de divulgação e, principalmente, avançar no processo de regularização como empreendedoras. “Essas ações de capacitação ampliam as possibilidades de geração de renda e fortalecem a autonomia dessas mulheres, preparando-as para gerir seus próprios negócios de forma mais sustentável e competitiva”, reforçou.
Mercado corretivo do solo
Questionado sobre o potencial de mercado do corretivo de solo produzido a partir das cascas de sururu, o Diretor Presidente do Instituto Goiamum, conta que os produtores rurais, desde agricultura orgânica à grandes produtores, utilizam corretivo agrícola para corrigir o solo. “O corretivo utilizado hoje vem de exploração do calcário dolomítico, a atividade degrada o meio ambiente e volta como insumo agrícola. No nosso caso, nós retiramos um passivo ambiental da beira do mangue e ele volta de forma orgânica e sustentável para o meio ambiente. A casca do sururu possui, cálcio, magnésio e outros micronutrientes”, explica.
Segundo Sassi, a comercialização do corretivo agrícola permitirá gerar recursos para reinvestimento nas próprias atividades, reduzindo a dependência exclusiva de editais e patrocínios. Além disso, parcerias com órgãos públicos, empresas e instituições de pesquisa ampliam as possibilidades de inovação, abertura de mercados e fortalecimento do protagonismo das marisqueiras, assegurando que o impacto social e ambiental se mantenha de forma duradoura.

Ele completa ainda que o corretivo de solo feito das cascas já foi testado em plantações e tem mostrado resultados. “Os resultados já demonstraram melhorias significativas no desenvolvimento da lavoura, e seguimos acompanhando de perto todo o processo, validando na prática o potencial do produto para a agricultura”, disse.
Sassi afirma ainda que o modelo pode ser replicado para outros tipos de resíduos da pesca. “É totalmente replicável e pode ser adaptado para outros tipos de resíduos da pesca, transformando materiais que antes eram descartados em produtos de valor. A experiência com as cascas de sururu já mostra como é possível gerar renda para as comunidades, reduzir impactos ambientais e criar soluções sustentáveis a partir de recursos locais”, finaliza.










