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O desafio de ser mãe na geração sanduíche: sobrecarga física e mental

Já preparou um sanduíche? A forma como é empilhado em camadas — fatia de pão, recheios e outra fatia de pão — ilustra bem uma realidade familiar, onde três ou mais gerações dividem o mesmo espaço. É por isso que o grupo de adultos entre 35 e 49 anos que convive e é responsável por cuidar de pessoas de diferentes gerações – de filhos, netos ou sobrinhos a pais, avós e tios – é conhecido por “Geração Sanduíche”.

Um estudo produzido pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) revelou que ao final do ano de 2023 existiam 955 mil chefes/cônjuges entre 35 e 49 anos vivendo em lares com filhos de até 24 anos e idosos com 65 anos ou mais. Os dados mostram ainda que as mulheres lideram essa ocupação (60,2%). Muitas delas são mães, que além de enfrentar os desafios da maternidade, também precisam cuidar dos pais e até mesmo dos netos.

O equilíbrio entre as responsabilidades que este papel exige pode ser esmagador, trazendo desafios emocionais e trabalho dobrado. Por isso é tão importante refletir sobre o papel dos que fazem parte deste grupo. De acordo com a psicóloga Elza Leite, mesmo que existam homens na geração sanduíche, a sobrecarga tende a ser maior para a mulher, sobre quem recai as atividades de cuidados dentro do lar.

“Quando a gente pensa numa separação, na maioria das vezes, os filhos ficam com a mãe. Quando a gente para e pensa nos cuidados dos pais idosos, as filhas sempre estão à frente. Quando se pensa que quando a mulher é mãe, o cuidado com o filho é muito mais aplicado por ela do que pelo pai. É um processo histórico e cultura”, explicou.

Segundo a especialista, já é comprovado que as mulheres trabalham cerca de 9 horas a mais do que os homens durante o dia. “A gente chega em casa, cuida de casa, cuida de comida, cuida de cachorro, cuida de filho, cuida de marido. Tem relação sexual, tem a nossa aparência, tem pai, tem mãe. Às vezes tem filho pequeno, tem que trabalhar fora. Quando não trabalha fora, às vezes é empreendedora, estuda, é muita coisa”, frisou.

O desafio de ser mãe na geração sanduíche: sobrecarga física e mentalQuestionada sobre os impactos da sobrecarga, Elza explicou que esse acúmulo de funções, as amplas jornadas, promovem adoecimento não só emocional, mas também físico. “A pessoa entra num processo de anulação, de viver em função do cuidado do outro”, destacou.

Dessa forma, não é um equívoco dizer que as mulheres da ‘geração sanduíche’ estão mais propensas a desenvolver estresse, insônia, cansaço, irritabilidade, às vezes algum tipo de compulsão, por exemplo, compulsão alimentar para compensar a ansiedade.

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Mãe da mãe e da sobrinha

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) revelaram que enquanto elas aumentaram em 27,1%, passando de 452 mil para 575 mil no período entre 2012 e 2023, a quantidade de homens cresceu 17,2%, aumentando de 311 mil para 380 mil no mesmo período.

A dona de casa Glauce Damiana, de 50 anos, sabe o que é sentir na pele o peso de ser esmagada por duas bandas que necessitam de cuidados. Ela reside no mesmo quintal que sua mãe, a dona Jacy Normélia, uma idosa de 83 anos e, após o falecimento da sua irmã mais velha, adotou sua sobrinha, uma jovem de 25 anos que tem paralisia cerebral e é completamente dependente.

“Além dessa minha filha adotiva, eu também tenho um filho de 21 anos que mora comigo. A minha mãe não mora na mesma casa que eu, mas é no mesmo quintal, então não tem muita diferença porque sou eu que fico com ela”, contou.

Para “facilitar” nas tarefas, Glauce já leva a filha para a casa de sua mãe, evitando sair de uma residência para a outra. Além de todas as refeições, tem a limpeza, os cuidados com os cachorros, roupas, entre outros afazeres. “Eu só paro na hora de dormir. O dia aqui é pauleira, não é para qualquer um não”.

Além de abrir mão do emprego, outro grande desafio foi a adoção. Mas, ao mesmo tempo, foi recompensador. “A rotina com a minha mãe é um pouco mais tranquila, eu ajudo com os afazeres da casa, marco consultas, nada muito pesado. Agora, com a Karen é mais complicado, porque ela depende 100% de mim. Ela é um bebê que precisa de cuidados 24 horas por dia, sinto que estou revivendo a maternidade primária. Ela é um presente na minha vida!”, finalizou.

Mercado de trabalho

A impossibilidade de conciliar múltiplas tarefas dentro do lar afeta diretamente a inserção das mulheres no mercado de trabalho e a qualidade dos postos de trabalho ocupados. Dados do IBGE mostram que a proporção de mulheres da ‘geração sanduíche’ fora do mercado de trabalho (33,6%) é quase seis vezes maior do que a registrada pelos homens (6,1%).

Mesmo comparando com outras mulheres na mesma faixa etária e na mesma condição de chefe ou cônjuge do chefe, as mulheres que vivem essa realidade têm as maiores chances de estarem fora do mercado de trabalho.

Ainda segundo o levantamento, entre as mulheres da ‘geração sanduíche’ que conseguem conciliar as múltiplas tarefas e trabalhar, o grau de informalidade é elevado, seja comparado aos seus pares homens ou as outras mulheres que residem com menos gerações dentro do lar.

A taxa de informalidade entre elas (36,6%) foi maior do que a dos homens (33,7%). Segunda a pesquisa, a levada taxa de informalidade está relacionada ao seu nível educacional, a quantidade de horas que elas conseguem trabalhar e ao tipo de função que elas desempenham em seus empregos. Atividades informais tendem a oferecer maior flexibilidade, mas em contrapartida, também remunera menos.

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