Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Os tios

Dia desses, lendo o respeitado jornal Chosun Ilbo, da Coreia do Sul, deparei-me com uma matéria digna das mais profundas reflexões, particularmente sob o pano de fundo do futuro da humanidade.

Noticiava-se ser um negócio florescente, naquele país, a contratação de um certo “serviço de tios”, destinado a ajudar crianças que estejam sendo vítimas de assédio nas escolas – algo lamentavelmente comum em um mundo no qual a instituição da família e a figura da autoridade enfrentam uma crise sem precedentes.

Funciona assim: os pais da criança que estiver sendo vítima de assédio contratam os serviços da empresa, que despacha para a escola, como se “tio” desta fosse, um daqueles tipos com aspecto de pessoa sinistra e violenta.

Este falso tio, lá chegando, providenciará na porta da escola um “barraco” de grandes proporções, ameaçando a criança que estiver assediando seu “sobrinho”, e bem assim sua família. Este “pacote” custa precisos US$ 443 por dia.

Há também a opção, mais civilizada, de coleta de provas. Conforme esta, o suposto tio reunirá evidências do assédio, inclusive filmagens e gravações, e comparecerá diante da diretoria da escola para cobrar providências, sob pena de encaminhar o assunto para as autoridades. Para este serviço, a família desembolsará US$ 354.

O terceiro “pacote” de serviços, entretanto, é de longe o mais, digamos assim, exótico – e caro, custando US$ 1.772. Neste caso, o falso tio da vítima – lembremos, um brutamonte de aspecto sinistro – compromete-se a ir nada menos que quatro vezes ao local de trabalho dos pais da criança autora do assédio. Lá chegando, começa a instalar um escândalo, gritando frases como “o pai de uma criança que pratica assédio trabalha ali”, seguidas das devidas ameaças e intimidações.

Fiquei a meditar sobre este quadro. Reflete ele uma crise profunda de autoridade – que o digam os professores, a cada dia mais desamparados e impotentes diante da violência instalada nas salas de aula. Traduz, também, a falência do aparelho estatal e a aurora de um trágico “salve-se quem puder”.

Mas talvez o aspecto pior seja o da decadência da instituição denominada “família” – uma das grandes responsáveis por um quadro de violência, depressão e até suicídios de crianças, algo que já começa a se tornar rotina no seio da humanidade.

Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.

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