
Ainda criança, meu pai levava minha irmã e eu para a praça Manoel Bonito, em Araguari (MG). Era um momento nosso com ele e nossa mãe. Um programa livre e acessível, pleno de prazer. Talvez por ser criança, o local parecesse demasiado grande. Mas nunca esqueci a vida que se desenvolvia em torno das águas e das luzes que saíam da fonte no meio daquela praça – e muitas vezes meu pai nos levava ainda ao cinema em uma das esquinas que definiam aquele lugar.
A dança das águas era um programa de domingo. Elas subiam e desciam como sinfonias móveis. Eu me deleitava, embora nem soubesse aos seis ou sete anos o que essa palavra significava… o cinema, diria que um mimo. Mas as águas e as cores me encantavam e seduziam.
As fontes e chafarizes fazem parte da história das cidades, originalmente destinadas a suprir o abastecimento de água potável. Essas fontes, aquedutos e similares aumentaram junto com o crescimento urbano, orquestrados pelo poder público, embora fossem perdendo essa função útil inicial, na medida que as cidades cresciam e se desenvolviam outras soluções para fazer chegar água à população.
As fontes foram se tornando um ‘simbólico do poder’, propagador de uma imagem de magnificência e eficácia das gestões urbanas no Brasil. Se como pontos de abastecimento tinham finalidade útil e social, quando abandonaram essas funções, se tornavam grandes centros de relações interpessoais e políticas que os levaram a serem pensados como espaços urbanos que deveriam ter algum destaque estético, integrando-se à paisagem urbana. Era isto que eu, nos anos de 1970 sentia ao vivenciar aquelas águas dançantes.
Esse processo de estetização das águas úteis vai conduzindo a objetos cada vez mais elaborados que vão abrindo caminho para a construção de fontes ornamentais como as conhecemos. Anos depois daquela experiência infantil dominical de ver e rever as luzes que ganhavam forma nas águas que dançavam, me tornei um pesquisador do ecossistema urbano e de sua lógica patrimonial e memorial por meio dos equipamentos e mobiliários urbanos, como as fontes, chafarizes e os monumentos urbanos.
Como professor de artes na UFES e pesquisando sobre espaços e obras urbanas no Espírito Santo, vi, na dureza dos anos finais da década de 1990, o fim de nossas fontes e águas dançantes em praças públicas. Tive a felicidade de ainda ter vivenciado a Praça dos Namorados, em Vitória, no esplendor de um projeto que unia o mar e a terra tomada pelo aterro da conduza. O projeto da fonte naquele local, assinados pelo arquiteto Gregório Repsold e pelo escultor Ioannis Zavoudakis (o Grego). Hoje, em 2024, restam apenas vestígios da grandeza desse projeto. Apenas os globos de pastilha de vidro ficaram expostos. O lago/fonte desapareceu sob o aterro do espaço compartilhado. Poucos ainda lembram dele…

Assim chegamos ao ponto que me interessa, hoje, ao caminhar pela Parque Eduardo VII, em Lisboa: por que matamos nossas fontes e desumanizamos nossas praças?
Revisitar o parque e suas partes como o esplendoroso gramado onde pessoas deitam ao sol do verão; por onde caminham com seus cachorros e crianças que correm sem medo; onde simplesmente se sentam a ler um livro ou ouvir uma música em seus telefones… foi hoje um pouco diferente. Talvez pelo não mais deslumbramento com o novo, pois depois de morar aqui e voltar algumas vezes, o local não é exatamente mais uma novidade. Mas algo me tomou nesse fim de tarde que me fez varar a madrugada escrevendo este texto: onde foram parar nossas fontes e seus encantamentos no espaço público das nossas cidades?


Aqui, temos um espaço que os portugueses chamam de lago, mas é um espelho d’água com uma estrutura escultórica no centro de onde águas esguicham enquanto as pessoas caminham, deitam-se, ou refrescam-se com um “imperial” ou uma taça do bom vinho português. Vê-se a tarde cair e a luz do por do sol “doirar” a cidade… esse lago/fonte não se encerra em si mesmo. É habitado em suas margens internas por peixes e tartarugas. Para além das pessoas em suas margens, gaivotas vagam com naturalidade como se habitassem esta casa.
Ai, voltei hoje a pensar, por que nós tendemos a abandonar nossas praças? Em outra coluna, perguntei sobre o agora de nossas ágoras (nome dado a esses espaços políticos urbanos), mas lá era sobre o abandono público que me interessava falar. Mas hoje, no lago/fonte do Eduardo VII, me lembrei de como esses lugares são importantes na existência enquanto seres em compartilhamento da cidade… o que sobra das cidades encarceradas cada vez mais em condomínios privativos? Que vida há fora do espaço compartilhado e vivido das cidades?


Caminhando e atravessando pontes pelo parque e seus diversos pontos de vistas, esse lago/fonte me tomava novamente de assalto e eu me perguntava: por que abandonamos o projeto da Praça dos Namorados? Um dia, me falaram que foi por causa da dengue que nossas praças perderam suas águas dançantes, mas temo que fomos afastados pela falta de segurança e pelo abandono público desses espaços. Do mirante, qual as gaivotas tranquilas daquelas águas, via o tempo contemplando os que contemplavam a paisagem diante dos olhos, um microssistema urbano, um microcosmo em uma capital cosmopolita.
Onde ou quando perdemos nossa capacidade de viver a cidade? Estou a tentar lembrar disto deste lado do oceano…









