Todos os que acompanham atentamente a política nacional, certamente conhecem o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Afinal, ele já foi vereador e prefeito de São Paulo, deputado federal e ministro de estado. Hoje é um dos mais importantes quadros políticos do governador Tarcísio de Freitas. Não só secretário do governo, mas antes de tudo o grande articulador da vitória do novato político em São Paulo na eleição de 2022. Seu partido fez centenas de prefeituras no interior daquele estado, e por essa razão é avalista e ponto central da governabilidade dentro do maior colégio eleitoral brasileiro.
Kassab é um personagem que poderíamos chamar de CEO de partido, faz uma gestão intensiva dos interesses partidários nacionalmente, e é certamente um dos grandes responsáveis pelo grande sucesso eleitoral do seu PSD, fundado em 2011 por ele e por Guilherme Afif. O PSD que tem hoje o maior número de prefeituras do Brasil, 887 eleitos em 2024. Além disso, conta com 47 deputados federais, 14 senadores e 6 governadores. Vamos convir que é um ativo eleitoral respeitável.
Kassb faz parte do movimento chamado de Centrão, do qual é um dos caciques, e tem uma lógica de ação política nitidamente de centro-direita, mesmo que não goste de nenhum rótulo ideológico. Movimenta-se como um ator chave no tabuleiro que vai influenciar as próximas eleições, e tem ao seu lado como companheiro de partido o ex-governador Paulo Hartung, com quem anda a jogar xadrez, pelo que se vê nas redes sociais. Xadrez para profissional, como costumava dizer o meu amigo Sérgio Egito.
Até a bem pouco tempo, ele estava empenhado na construção da candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas, que se mostrava muito viável como alguém que poderia enfrentar a força política do presidente Lula, o que não é pouco. Entretanto, o projeto de direita moderada de Tarcísio começou a fazer água quando o ex-presidente Jair Bolsonoro indicou de forma unilateral, e sem ouvir ninguém, seu próprio filho como candidato a presidente da república.
Bem ao estilo Bolsonaro, foi uma decisão solitária, sem ouvir parceiros e correligionários. Lembrou o General João Batista Figueiredo, o último de nossos ditadores, que escolheu a candidatura de Paulo Malluf e ficou sozinho contra a grande articulação de Tancredo Neves no colégio eleitoral. Política é alguma coisa se faz em grupo, e quando um líder se isola, acaba produzindo ruptura e fragmentação ao seu lado. Tudo o que estamos vendo me leva a crer que esse isolamento pode comprometer o futuro da candidatura de Flávio Bolsonaro, feita a partir de relações de sangue e quase nada a mais. Flávio tem a relevância política e eleitoral que precisa entre os grandes atores nacionais.
Aqui entra a genialidade de Kassab: diante de um quadro eleitoral que caminha para a velha polarização Lula x Bolsonaro, com um Bolsonaro enfraquecido e um Lula desgastado pelo tempo, ele percebe que poderá haver um lugar para a chamada terceira via. Existem eleitores que querem ter uma escolha com base em seus próprios julgamentos, e não por verdades instaladas desde 2018. Kassab começou a movimentar o tabuleiro. Nos últimos dias de janeiro fez um movimento mais definitivo: convidou Ronaldo Caiado para o seu partido, e são agora três presidenciáveis no PSD Caiado, Ratinho e Eduardo Leite. São três governadores em exercício – Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul – com perfis conservadores, mas tonalidades diferentes.
Ele provavelmente quer lançar Ratinho, mas dentro de um contexto de força em que jamais abandonará o governo Lula, já que seu partido tem ministérios que não pretende abrir mãol. Eu, em minhas análises, parto do princípio de que a candidatura de Flávio Bolsonaro enfrentará uma jornada muito difícil, cheia de raios e tempestades. Afinal sua relação com as terríveis milícias cariocas são inequívocas, e elas nos remetem imediatamente aos grandes carteis do crime organizado.
Além disso, as tais rachadinhas nunca foram esclarecidas e creio que inúmeros processos e depoimentos vão pular no colo do candidato da extrema-direita. Enquanto isso, Kassab, o PSD, o Centrão e um número expressivos de cardeais da política brasileira estarão na espreita, prontos para sacar uma solução à direita, mas não comprometida com discursos radicais.









