Há um novo sacramento civil que ninguém batizou formalmente mas que todo mundo pratica com devoção de convertido: o ato de erguer o celular diante de qualquer coisa que aconteça, seja um acidente, uma briga, uma cena de humilhação pública ou simplesmente a desgraça alheia em estado bruto, e filmar, filmar com a concentração de quem registra para a posteridade algo que a posteridade jamais pediu, como se a realidade só adquirisse existência legítima depois de passar pelo retângulo de vidro e alumínio que cabe no bolso e que, ao que tudo indica, substitui com eficiência crescente aquilo que os mais antigos chamavam de bom senso.
O fenômeno não é novo, mas amadureceu com a velocidade das plataformas que remuneram atenção e punem o silêncio, e chegou a um estágio em que a câmera deixou de ser um instrumento e virou uma postura moral, uma declaração de presença no mundo, uma espécie de prova de que se esteve ali, que se viu, que se testemunhou, que portanto se existe, porque quem não posta não passou pela cena e quem não passou pela cena talvez não passe pela vida, ao menos não pela vida que conta, que é aquela medida em visualizações e comentários com emojis de choro que podem significar tristeza ou alegria conforme o contexto e frequentemente não significam nada.
É preciso reconhecer, em defesa do cinegrafista espontâneo, que existe uma variante nobre desse comportamento, aquela em que o celular serve para documentar um abuso policial, uma irregularidade de agente público, uma injustiça que de outro modo seria negada e engavetada, e essa variante merece respeito e tem história, mas não é dela que se fala aqui, porque ela representa uma fração do que se produz, sendo o restante composto por crianças chorando que viram meme, idosos caindo que viraram meme, casais brigando que viraram meme, e uma quantidade industrial de situações em que a pessoa filmada não autorizou, não soube, não quis, e descobriu depois que estava no feed de alguém em Recife discutindo se o vídeo era engraçado ou triste.
O menor de idade ocupa nesse ecossistema um lugar especialmente delicado, porque é filmado por estranhos em praças, filmado por colegas em escolas, filmado por familiares que juram que é amor mas postam sem perguntar, e acumula registros digitais de sua existência a uma taxa que nenhuma geração anterior conheceu, sem que ninguém lhe tenha explicado que a internet tem memória longa e misericórdia curta, e que o vídeo de hoje é a vergonha de amanhã, não porque a criança fez algo errado, mas porque o mundo fará questão de lembrar.
Há também a variante jurídica do fenômeno, aquela em que o cidadão ergue o aparelho com a convicção de que filmar garante direitos, resolve conflitos e intimida autoridades, o que às vezes é verdade e às vezes é uma ilusão confortável que dura até o momento em que se descobre que gravar e provar são coisas distintas, que direitos se exercem com conhecimento e não com pixels, e que a câmera não é um escudo, é uma ferramenta, e como toda ferramenta depende de quem a segura saber para que serve.
O fecho de tudo isso, se é que há fecho, está numa pergunta que raramente se faz no calor da cena: antes de apertar o botão, a pessoa diante de você precisa de um espectador ou de um ser humano, porque se a resposta for a segunda opção, talvez valha guardar o celular no bolso e fazer aquilo que o aparelho, por mais sofisticado que seja, ainda não aprendeu a fazer no lugar de ninguém.









