Sei lá por qual razão costuma-se usar o adjetivo “burro” para (des)qualificar alguém que, para nós, não possui capacidade cognitiva para processar alguma informação, ou omite-se de fazê-lo por preguiça ou qualquer motivo menos nobre. Tudo bem que o simpático animal (o burro) não figure entre as criaturas mais festejadas pela sua inteligência, mas tampouco fecha a lista dos viventes mais aparvoados. Quando a gente usa essa “qualidade” (atributo?), inteligência, para classificar alguém ou alguma ação, quase nunca nos damos conta que os mecanismos e parâmetros considerados nessas medições (testes de QI e outros) são derivados da ação humana, já que suas variáveis e referências demandaram reflexão, criatividade e critérios analíticos que nenhum computador consegue produzir.
Quando a expressão “IA” (Inteligência Artificial) foi cunhada, lá pelas bandas dos do ano de 1955, pelo cientista americano John McCarthy, ela servia para rotular dois novos campos de conhecimento que surgiam, a robótica e a cibernética, aglutinando-os, tendo sido depois apropriada e generalizada para tratar dos avanços do mundo digital sobre nossas vidas.
Como toda tecnologia, a Inteligência Artificial, tem seu lado (e seu uso) bom e mau, como mostram milhares de exemplos quais o rádio, a química industrial, a energia nuclear etc. Pelo lado positivo, seu desenvolvimento, avanço vertiginoso e aplicação cada dia maior vêm permitindo melhoria das condições de vida, serviços e outros gêneros de necessidade humana como sistemas de controle de tráfego, produção de alimentos, diagnósticos médicos, distribuição de produtos, difusão de conhecimentos e coisas mais prosaicas como geladeiras que advinham o que seus donos quererão para o jantar…
Mas o oposto se dá quando essa tecnologia é utilizada de maneira perversa e, quase sempre, criminosa, projetando armas irresistíveis e ainda mais letais, forjando documentos e imagens que fraudam direitos, difundindo notícias falsas e aprimorando golpes de todos os tipos. Todos temos acompanhado essa sucessão de benesses e malefícios, que bebem da mesma fonte e se multiplicam com igual velocidade, cada vez mais eficazes em seus efeitos louváveis ou maléficos. Os de nós pessimistas chamam de “sinal dos tempos”, aqueles otimistas exaltam apenas avanços e conquistas, e, os pragmáticos, obtemperam ser “o preço a ser pago”.
Não obstante, se as consequências nefastas ficassem restritas àquelas acima lembradas, a lógica que rege e as experiências que resultam dessa grande aventura chamada vida humana mostrariam que a maioria das coisas (produtos e tecnologia) criadas pelo homem, surgem como maravilhas mas, com o passar dos anos, vão sendo superadas por outras mais modernas ou menos custosas, isso quando não se descobre nelas algum resultado ou efeito colateral horroroso, mascarados pelo entusiasmo novidadeiro ou pela sua abusiva divulgação sem cuidados. Com efeito e apenas como exemplo, drogas alucinógenas são experimentadas por muita gente que despreza o risco de dependência química que pode se dar já no primeiro uso, e suas armadilhas são as falsas convicções de que “uma vez só não faz mal”, ou o pretenso controle do usuário.
Muita gente saudável, que raramente sofre os efeitos destruidores daquelas substâncias nas primeiras vezes, acaba por tornar-se um dependente químico que, na ânsia de obter aquele produto, termina, paradoxalmente, arriscando sua vida à vista para continuar a destrui-la a prazo. No hiato que medeia o êxtase inaugural e a percepção de que já se ultrapassou de um ponto de “não-retorno”, o corpo vai progressivamente sendo degradado – principalmente o cérebro – acumulando as agressões químicas e suas consequências, até sua completa destruição funcional.
Esse órgão, uma joia da evolução, tem uma característica (dentre tantas fantásticas) denominada neuroplasticidade, que o permite reorganizar-se, estrutural e funcionalmente, em resposta a novas experiências, aprendizado, mudanças ambientais ou lesões. Um cérebro saudável e submetido a constantes desafios, vai-se moldando para respondê-los cada dia melhor e mais rápido, acumulando experiências, otimizando suas respostas, enfim, aprendendo e evoluindo. Porém, essa mesma neuroplasticidade provoca no cérebro alterações concernentes ao desuso, à preguiça cognitiva, à acomodação, ao descaso de seu dono: ele “entende” que não precisa melhorar, entra em “modo avião” com mais frequência, e, quando se “apercebe”, virou apenas “recheio da caixa craniana”.
Pela primeira vez em nossa história pesquisas mostram que as gerações novas estão surgindo piores que as anteriores, e a curva de queda, acentuada, não dá sinais de reversão rápida. Crianças e adultos jovens estão se acomodando a terem suas escolhas, opções, reações e decisões feitas pela Inteligência Artificial. Os tais algoritmos, programados para descobrir e oferecer instantaneamente o que se deseja, já ultrapassaram o degrau do “livre arbítrio”, e operam, hoje em dia, no patamar do que se deve desejar.
Sem perceber, estamos renunciando a nossa liberdade, enterrando nossa criatividade e obliterando nossos instintos naturais em troca de uma promessa de conforto e êxtase imediatos, fáceis, advindos de “dopaminas baratas” como aquelas induzidas pelo consumo, pelos jogos, substâncias entorpecentes e outras iscas vendidas como libertárias, porém escravizantes. A sociedade humana, muito além dos riscos do mal-uso da Inteligência Artificial, caminha triunfante e orgulhosa ao encontro do emburrecimento natural.










