Chamam “arapuca” um determinado objeto feito originalmente de gravetos amarrados com cipós, em forma de pirâmide, concebido para capturar pequenos animais e aves: uma armadilha, enfim. O caçador instala esse dispositivo num determinado local que sabe frequentado pelas pretendidas presas, põe sob algo que atraia o interesse do alvo (normalmente um alimento, arma uma espécie de gatilho (que dispara o mecanismo quando se esbarra nele) e, finalmente, espera que a coisa funcione como esperado.
O animal, normalmente um pássaro, é atraído para debaixo do dispositivo por enxergar uma oportunidade de conseguir o alimento que lhe sacia a fome, sendo a intensidade dela o fator principal para o sucesso da empreitada. Ocorre que, ao contrário de nós, humanos, o bicho-alvo da arapuca não acorre à mesma, senão para obter aquilo que lhe é fundamental, e seus instintos de sobrevivência “brigam” o tempo todo entre a necessidade natural de alimentar-se e os perigos que a evolução ensinou para escapar, naquele e em todos os processos, do insucesso e de seu único “medo” existencial: a morte.
Um pássaro (fiquemos nele) não considera como risco falhar, ser capturado e colocado numa gaiola, merecer críticas de seus semelhantes, ou não conseguir explicar “em casa” o porquê de o vizinho ter voltado com uma minhoca no bico e, ele, de “asas vazias”. Tampouco lhe afetam questões “subjetivas” como “autoestima”, desempenho na etapa de projetos ou, menos ainda, sua imagem em algum tipo de ranking social, visto que a vida, para ele, consiste em sobreviver (e isso demanda alimento, ar, água e abrigo) e reproduzir-se, propagando seus genes por sucessivas gerações, até que seu tempo se esgote, de “preferência”, pela velhice.
Um bicho, diante de um cenário onde enxerga (no caso de uma arapuca) a oportunidade de conseguir alimento, considera apenas a sua necessidade natural (comer) e os elementos que compõe a cena, como outros concorrentes, dificuldades do terreno e ameaças à sua segurança física. Ele não cogita ou considera fatores subjetivos ou abstratos como nós, seres humanos, fazemos, como vaidade, cobiça, inveja, compreensões distintas da realidade, rancores e paixões, tampouco avalia aquela oportunidade pelo prisma do “investimento”. E é exatamente nesse ponto que a perspectiva da “armadilha”, para nós, sofre um aumento exponencial em termos de risco. Já se disse que a pior das armadilhas é aquela que armamos para nós mesmos.
Isso faz todo sentido quando consideramos que, na ânsia de construir o melhor dispositivo possível para “capturar” uma “presa”, o caçador dedica-se a imaginar todas as possibilidades de fuga, investe recursos proporcionais ao valor do “prêmio” que almeja e arranja tudo levando em consideração aspectos apenas objetivos, mas sujeita-se às intercorrências de fatores que não pode controlar, como reação do “alvo”, intercorrências ambientais e, principalmente, suas percepções, pensamentos etc.
Quando, na maioria dos casos em que as coisas não correm como o esperado, o “caçador” se vê preso pela própria armadilha, ainda que ele consiga livrar-se das amarras e expedientes que criou para dificultar o escape de seu alvo, permanecerá enredado pelas consequências das ações que fez com base, apenas, nos seus impulsos e valores, porque os primeiros decorreram dos segundos e, esses, foram forjados e sedimentados durante muitos anos, às vezes a vida inteira.
Do ponto de vista prático e ilustrativo, qualquer pessoa minimamente informada sabe que qualquer investimento financeiro regular, com um mínimo de segurança e riscos toleráveis, rende, ordinariamente, coisa de 1% ao mês, consideremos assim. Porém a ânsia de parecer melhor que os outros, a vaidade de sobressair-se ao comum, e a reconhecida característica que temos de achar que conosco vai dar certo, fazem com que muitos entrem em furadas obvias, palmares, evidentes, entregando seus recursos a gente que arrota capacidade de “render” 10 vezes mais, exibindo imagens ou requintes de uma realidade construída exatamente para pegar trouxas que se julgam gênios, como “passarinhos” diante de uma quantidade exorbitante de alimento, absolutamente impossível de obter em circunstâncias normais.
Isso se aplica a qualquer setor, ambiente, classe socioeconômica, gênero ou lugar do planeta onde existam, de um lado, um predador querendo capturar uma presa, e uma presa disposta a ultrapassar todos os limites para atingir um objetivo que sabe incomum, improvável ou extremamente custoso pelas vias normais. Até o momento que a arapuca fecha, tudo é lindo, maravilhoso, excitante e diferenciado. Entretanto, depois que o mecanismo funciona, a vítima percebe-se como tal e conclui como mínimas ou inexistentes as chances de fugir ao destino que sabia certo, mas relevara por vaidade ou cobiça, ela entrega-se à prostração da “morte em vida”, ou passa, desesperada pela própria vergonha, a culpar o mundo pela má-sorte, terceiros que não conseguiram impedi-la e, mais que tudo e tão ineficaz quanto, a responsabilizar o predador pela sua desdita.
Não obstante clara a responsabilidade do caçador pelos seus atos, e inquestionavelmente reprováveis quase todas suas ações, ele, o predador, escolheu agir como tal, e pouco importa o que a vítima, seus familiares, amigos e vizinhos pensam dele, como, voltemos ao reino animal, um leão, que não dá a mínima para o sofrimento da mãe que perdeu seu filhote para suas garras: ele tão-somente se certifica da inexistência de ameaças por perto, baixa a cabeça e começa a comer.









