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13 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Os três níveis de debate

Atribui-se a um dos maiores filósofos da história, Platão, a frase “Pessoas inteligentes discutem ideias, as normais, fatos, e, as mesquinhas, falam sobre pessoas”. A compreensão mais amplamente aceita desse pensamento é de que ao debater ideias, os que o fazem enriquecem-se mutuamente. Aqueles que têm nos fatos o elemento fulcral de seus assuntos, é possível progredirem desde que colham deles informações e experiências, extraindo ensinamentos e exemplos úteis à sua vida e integridade. Entretanto aos que se resumem ao escrutínio da vida alheia, submetendo os outros ao seu crivo, esses quase sempre permanecem estagnados na fulanização ou regridem, visto que não oferecem o que de bom possuem e tampouco ajudam a melhorar os defeitos alheios, correndo, ademais, o risco de absorverem-nos já que, nas  palavras de Carl Gustav Jung, “as qualidades que nos irritam nas outras pessoas são, na verdade, projeções de características nossas que reprimimos ou de aspectos da nossa própria sombra, que não aceitamos”.

Como vivemos cercados por pessoas e a interação social é indispensável à nossa sobrevivência, crucial buscarmos um nível pelo menos saudável de conversa, o que demanda qualificarmos o quanto possível nossas presenças e falas. Talvez os mais evoluídos, espiritual e culturalmente, consigam manter diálogos que tratem exclusivamente de ideias lúcidas e dignificantes. Mas são poucos.

A grande maioria “alternamos” elementos relevantes e coisas mundanas, comuns ao cotidiano e, em certas situações, caímos na vala dos mexericos, tratando de maneira jocosa pessoas, normalmente ausentes, de quem desagradamos. O problema está nos que se dedicam somente às “artes” da fofoca e da maledicência, prescrutando tanto a vida alheia que esquecem da própria: esses nada produzem, nada acrescentam, nada engrandecem. Nem aos outros, nem a si próprios.

A arte da convivência requer alguns cuidados e princípios, como a um estagiário recém-ingresso numa grande oficina impõe-se identificar, antes de usá-los, cada um dos apetrechos que compõem o ferramental disponível, já que uma marreta e uma singela chave de fendas são igualmente instrumentos, mas sua composição, seu formato e seu propósito diferem-se enormemente, e o fato de estarem, ambos, à disposição, não garante que qualquer deles porventura escolhido servirá para alcançar o resultado pretendido.

Também assim são as pessoas em suas semelhanças e divergências, de modo que em qualquer situação que demande diálogo (daquele travado com o caixa da padaria até os que ocorrem em ambientes solenes) o respeito é fundamental. Não se concebe que pessoas se tratem umas às outras de maneira agressiva, menos ainda que se dirijam impropérios ou levem a conversa para a zona do confronto, seja entre pais e filhos, sejam elas absolutamente desconhecidas uma da outra, fato muito comum no cotidiano, quando usuários das redes sociais, residentes em polos opostos do planeta, interagem nos comentários a uma postagem de terceiros ou deles próprios.

Se outrora a proximidade física ou a perspectiva de esbarrarem-se na rua freavam ímpetos mais agressivos, hoje em dia a sensação de proteção que a distância e o anonimado trazem estimula algumas pessoas a tratarem os que divergem de suas opiniões de modo covarde e até criminoso, nada incomum vermos comentários ou afirmações estapafúrdias e virulentas sobre a honra alheia, algumas atribuindo a prática de atos que seu oponente sequer conheceu existirem, praticou ou apoiou. Esse fenômeno, um evidente desvio de caráter, vem se adensando, fragmentando ou destruindo relações muitas delas longevas, afetivas e até sagradas, como familiares. Sempre bom lembrar que fatos ocorrem independentemente de nossas vontades, e absolutamente nada podemos fazer para mudá-los depois de consumados.

Cabe-nos compreender suas nuances e efeitos, decidindo o que deles aproveitar para nosso crescimento. O que se vê neles, dependendo do ângulo e do tempo, pode divergir imensamente enxerga depois. Gostarmos de alguém não implica em traição quando desgostamos do que fizeram ou disseram, e entender não é sinônimo de concordar. Demais de tudo, paixões nem sempre são boas conselheiras, tampouco sua romantização relativiza os males que seu destinatário causou com seus atos. Há alguns anos presenciei uma discussão entre dois especialistas em futebol, cada qual torcedor de um grande time rival do Rio de Janeiro.

A conversa começou num interessante debate de ideias, ambos fazendo referências relevantes à história dos seus respectivos clubes e à realidade do esporte no Brasil, com opiniões e críticas interessantes ao seu aperfeiçoamento. Instantes depois o calor do debate aumentou e passaram ambos ao costumeiro confronto de glórias, quem era melhor que quem, quem era mais vitorioso, coisas ainda toleráveis à civilidade.

Mas o precipício da dignidade se abriu quando um deles referiu-se ao homicídio de uma mulher, crime bárbaro atribuído a um famoso jogador do time do outro, pelo qual foi seu autor denunciado e condenado. O antagonista, tomando a lembrança como afronta pessoal por ser torcedor apaixonado do time onde jogava o assassino, primeiro debochou dizendo que “como não tinha sido encontrado o corpo”, era provável que tudo não tivesse passado de armação de algum inimigo, e a moça estivesse viva em algum lugar.

Como percebeu que sua versão não produzira efeito algum, passou a tentar “justificar” o ato criminoso, afirmando que a vítima tentara extorquir o criminoso usando uma criança fruto do relacionamento extraconjugal como arma, portanto “procurara” aquilo que acabou sofrendo. Por fim, ostentando uma impressionante falência moral, terminou sublimando a delinquência e prestando sua solidariedade ao delinquente, já que era “do seu mesmo grupo” e, por isso, indene de culpa.

Isso não é aceitável e não pode ser debitado à “liberdade de expressão”, artifício muito usado por quem, envergonhado e obtuso de argumentos, prefere irmanar-se à indecência do que refutá-la. Crimes são crimes, e condutas degradantes continuam reprováveis mesmo que nutramos alguma simpatia por quem as comete. Quando percebemos que determinados diálogos avançam para ultrapassar os limiares toleráveis da dignidade humana, melhor encerrá-los antes que nos deixemos contaminar pelas patologias que povoam esses ambientes.

Como prega famoso ditado popular alemão, “quem cede à ânsia de mergulhar numa chaminé para limpá-la sozinho, quase nunca alcança seu intento, mas sempre sai dela coberto de fuligem”.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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