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13 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Orgulho de vira-lata

Logo após a derrota da Seleção na Copa de 1950, o genial escritor Nelson Rodrigues cunhou uma singular expressão para explicar o que enxergava como uma espécie de complexo que via acometer muitos de nós, brasileiros; uma inferioridade autoimposta, menosprezando o próprio país, sua cultura e suas conquistas e, inversamente, supervalorizando o estrangeiro: síndrome de vira-lata.

Debates e estudos à parte, o fato é que desde que nos conhecemos como sociedade brasileira – ainda adolescente e sem uma identidade nacional formada – vivemos numa alternância quase esquizofrênica entre os que consideram o Brasil a antessala do paraíso, e outros que o enxergam como a cloaca do mundo. Ufanistas incorrigíveis e derrotistas congênitos existem aos montes em qualquer sociedade, e discussões, muitas delas travadas por motivos banais, volta e meia descambam para episódios de violência, principalmente quando afetas a dissonâncias inconciliáveis sobre opiniões e valores defendidos radicalmente por protagonistas desequilibrados, cada um deles extremado em suas próprias visões de mundo, valores e experiências individuais.

Sem fugir à realidade ou carregar nossa “paleta” de cores exageradamente fúnebres ou alegres, temos muito do que nos orgulharmos enquanto brasileiros, mas, igualmente, desafios e problemas imensos a resolver, como qualquer nação do planeta.

Se esse contraste entre perspectivas é natural e não desqualifica ninguém que tenha opinião divergente, quando a disputa retórica supera os limites da convivência civilizada e seus contendores passam a advogar o caos como solução, alastrando conflitos e estimulando a insensatez, torna-se imprescindível que as pessoas e instituições sãs, não impregnadas por discursos de ódio ou atreladas a ideias que pregam o extermínio do oposto, ajam, ao menos para impedirem que mais lenha se jogue na fogueira eis que, para além da opinião de cada um, somos uma democracia imprescindivelmente sustentada por regramentos legais e garantias, pilares inegociáveis do que conhecemos como Estado Democrático de Direito.

Há uma diferença imensa entre gostar ou desgostar de alguma situação ou de alguém, aplaudir ou vaiar quaisquer que sejam suas falas e bandeiras, e a defesa de atos e condutas que afrontem, comprometam e violentem nossas soberania e autodeterminação.

Há dias circulou uma pesquisa que revelou um indecoroso percentual de pessoas “apoiando” o chamado “tarifaço” imposto ao Brasil pelo Presidente dos EUA, ato de chantagem muito semelhante a expedientes praticados por quadrilhas que brigam pelo controle de suas áreas de atuação. Embora claros os reais objetivos dessa ação praticada contra nosso país, há quem acredite em infantis narrativas, quase sempre recheadas de “defesa da democracia, direitos humanos e liberdade de expressão”, que são aspergidas à cata de gente, com baixa-estima ou capacidade cognitiva deficiente, que os compre.

Cerca de 28% dos entrevistados disseram apoiar as indecorosas ameaças do líder americano, afirmando-se não apenas na “torcida” para a coisa piore, mas também antecipando sua felicidade mesmo que tais assaques não atinjam o resultado deletério, já que a “terra arrasada”, a nossa, brasileira, garantiria sua festejada vingança. Não bastassem essas doentias e ignorantes compreensões, tornou-se comum vislumbrarmos pessoas fantasiadas com a bandeira americana, portanto cartazes escritos com frases que sequer sabem pronunciar, alguns rogando até a invasão militar de nossas fronteiras, numa impressionante revelação de subserviência a quem acena com um porrete numa mão e migalhas na outra.

Os cachorros “emprestados” por Nelson Rodrigues para forjar seu famoso conceito, hoje apelidados de “Caramelos” e muitos deles representando alegria aos que generosamente os acolheram do abandono das ruas, balançavam seus rabinhos felizes mesmo diante de quem os atraia e enganava, com afagos ou restos de comida, visando capturá-los e levá-los ao extermínio sanitário.

Conhecemos situações graves, quando muita gente se deixa enganar pelas aparências e corre rumo à desgraça acreditando-se no caminho da salvação. Em outras, certos de que alternativa não lhes resta, há os que troquem o pouco de decência e humanidade que ainda têm por mais alguns instantes de vida, não se lhes podendo julgar tais escolhas já que falou-lhes mais alto o instinto. Páginas horrendas de nossa história relatam prisioneiros que, torturados, entregavam seus companheiros em troca do alívio do massacre, ou irmãos que se delatavam uns aos outros para fugirem da morte que, quase sempre, os alcançava a ambos.

A resiliência não obedece a padrão único, cada um suportando graus distintos de sofrimento. Mas mesmo nesses episódios grotescos havia diferença entre quem entregava o outro para salvar-se, e um sabujo que o fazia para garantir algum lucro material, adulando e até homenageando seu carrasco.

Há diversos sinônimos para esse tipo de conduta: pusilanimidade, capachismo, traição, apequenamento, mediocridade, vilania e tantos outros igualmente apropriados. Tornando aos “vira-latas” que inspiraram esse texto, se possível fosse examinarmos suas “almas” sob prismas humanos, talvez os encontrássemos, dentro das “carrocinhas”, satisfeitos pelos instantes à mais hauridos em troca de um osso qualquer, mas jamais os veríamos orgulhosos de sua “miséria moral”.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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