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13 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Jamais cavalgue um tigre

Pode parecer surreal, coisa de maluco, alguns dirão, mas essa é uma expressão chinesa, milenar, aliás “bi” ou “trimilenar”, considerando que essa civilização é dada como surgida há 5.800 anos, em tese mais de três mil anos antes do nascimento de Jesus, marco há muito imposto, pela cultura ocidental, para dividir a história em antes e depois de. Aliás, sobre a China (ou o que hoje se conhece como) é interessante registrar – já que, de uns tempos para cá esse país vem sendo usado como padrão para medir-se tudo o que é ruim, falsificado, assustador ou ameaçador, como costumam os ignorantes lidar com aquilo que foge à sua compreensão – que na maioria das guerras envolvendo os chineses ao longo da história (e foram muitas), nossos vizinhos de planeta lutaram para defender seu território e seu povo, ameaçados ou invadidos por vizinhos que lhes queriam tomar terras, dominar seu comércio e roubar suas riquezas.

Um desses conflitos, bastante emblemático para quem gosta de conhecer além daquilo que a mídia tradicional traz como versão, foi a chamada “Guerra do Ópio”, travada entre a China e o Império Britânico no Século XIX, que teve como motivo (bem interessante quando trazido aos tempos atuais) a proibição chinesa à venda, em seu território, de um produto muito lucrativo para os ingleses: uma droga chamada ópio!

Cultivada a papoula  em larga escala nas colônias britânicas da Índia, seu produto alucinógeno era vendido “baratinho” à população chinesa (na época um “punhado” de 400 milhões de pessoas, menos de um terço da atual), gerando exorbitantes lucros para a coroa e para seus empresários, mas produzindo um efeito que em Londres era tratado como “mimimi” de gente ignorante, pobre, que deveria levantar as mãos para os céus agradecendo a bênção por poderem até viajar para conhecerem a “Trafalgar Square”, espécie de Disney Word da época: uma legiões de zumbis, homens e mulheres, velhos e crianças, entregues aos delírios e imagens produzidas pelo ópio em seus cérebros.

A China não detinha, naqueles dias, a tecnologia e a experiência bélica dos britânicos, sua frota era maciçamente composta por barcos de comércio e as redes sociais de então eram papel de fibra de bambu e caneta tinteiro. Perdeu a guerra e, além de ter que suportar outras dezenas de anos de submissão, entregou Hong Kong e outras áreas à Inglaterra, como espólio e indenização pela audácia de enfrentar uma potência tão forte, civilizada e, principalmente, defensora da liberdade e do livre comércio. Deles, claro.

Passados esses breves detalhes (que tenho o chato costume de incluir nos textos imaginando-os interessantes à reflexão e à compreensão de alguns contextos) volto à frase do título. Imaginando a cena que inspirou tal conselho, um ser humano normal (não aquele loirinho meio abobalhado protagonista do desenho infantil “He Man”, que assistia quando tinha uns 12 anos de idade, ou um domador experiente) é muitas vezes mais fraco que esse animal e ele, o bicho, não é naturalmente habituado a receber nas suas costas alguém que queira utilizá-lo de montaria.

As chances de dar errado, principalmente de terminar o cavaleiro servindo de lanche para o tigre, são brutalmente maiores do que ocorrer o contrário, ou seja, o ousado sujeito sair bravateando sua conquista. Pouco mais moderna que esse pensamento, a sugestão “não ligue nada que não consiga desligar, nem prometa nada que esteja fora das suas possibilidades de entregar” diz quase o mesmo, mas em outras palavras: se não conhecemos as possíveis consequências daquilo que queremos fazer, nem tampouco como consertar eventual desastre que disso ocorra, não é inteligente nem prudente avançarmos.

Todavia o que mais vemos hoje em dia são pessoas absolutamente ignorantes e inconsequentes fazendo coisas, deflagrando processos ou se imiscuindo em situações das quais não possuem sequer noção do que as precipitou ou motivou, nenhuma possibilidade de evitar ou reverter com seus próprios meios e, mais que tudo, nada a ganhar caso seus desejados esforços contribuam para o sucesso daqueles realmente interessados que resolveram apoiar.

Vale a costumeira metáfora: são como miseráveis sem-teto, que se unem a outros companheiros de desdita e, açulados em sua vaidade pelos espertalhões de plantão, recebem deles marretas e porretes e partem para destruir casas que não possuem condições de comprar ou competência  para construir e, depois de enxotarem de lá seus ocupantes, ficam do outro lado da rua, com fome e debaixo de chuva, extasiados com as festas promovidas pelos seus invasores, às quais nunca seriam ou serão convidados.

É muita gente papagaiando frases e informações, a pretexto de registrarem seu apoio incondicional a quem as divulgou, ou, pior, se colocando ao lado de alguns “pilotos de tigre” no mínimo sem se darem conta de que, acaso o ousado montador caia das costas do enfurecido animal, esse terá muitas opções além dele para escolher como alvo de sua ira. E ao cavaleiro, acrescento, pelo menos restará a glória pela sua singular coragem, enquanto, aos demais, somente a sorte do bicho escolher como almoço outro inconsequente mais próximo do local da queda de seu intrépido herói.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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