A expressão “bater palmas para maluco dançar” é uma metáfora usada no Brasil para descrever uma situação em que alguém está incentivando ou dando atenção a uma pessoa que está fazendo ou dizendo algo sem sentido ou produto de delírio. Em outras palavras, significa que ao dar atenção ou apoio a alguém que está agindo de maneira excêntrica ou imprópria, está-se, de certa forma, aprovando aquilo.
Esse comportamento, na maioria das vezes, decorre daquela máxima “não discuta com louco, para não terminar como ele” ou até por piedade ou “diversão”, para não piorar a situação ou para rir-se dela. Mas outro resultado pode ocorrer: o louco se sente empoderado, estimulado, persistindo e aumentando seu delírio, chegando às raias de provocar confusão entre a realidade e o surto em muita gente que não conhece a situação, mas que respeita aquele que, por omissão, deixou o maluco falando e fazendo o que quis.
Como estudante e profissional do Direito que sou há mais de 35 anos, tenho ouvido e lido, cada dia mais estarrecido, determinadas falas e textos de alguns outros igualmente operadores que a mim me permitem só duas conclusões: ou estou maluco e tudo o que estudei e vi até agora é fruto de minha surreal interpretação das leis e fundamentos, ou tem gente que está renunciando ou vendendo sua lucidez e sua dignidade em troca de alguma vantagem caso essas maluquices levem seus protagonistas ao poder, o que, penso, pode até ser uma estratégia inteligente, mas não deixa de ser indecorosa e desonesta, adjetivos que crescem na mesma medida da imagem social e profissional de quem assim age.
Tentando resvalar minimamente em questões ideológicas, protagonismos políticos e em outros elementos subjetivos muito pessoais, tenho buscado, à todos que me indagam ou pedem minha opinião sobre fatos e situações envolvam decisões judiciais ou questões afetas ao momento que vivemos no Brasil, responder de maneira objetiva, quase sempre – quando meu interlocutor é alguém que não teve acesso à formação acadêmica – agregando algum exemplo ou sugerindo algum complemento que entenda interessante à formação de sua opinião.
Aliás, vale o registro, dialogar, nem que seja por respeito à sua raiz etimológica, pressupõe duas pessoas compartilhando excertos de sua racionalidade, de maneira que entre um louco e alguém mentalmente são ele jamais ocorrerá, porque o primeiro trará seus mitos e impressões surreais, e o outro não conseguirá argumentar com fatos e elementos da realidade.
Outro cuidado que tenho tomado, pelo menos para preservar um mínimo de honestidade intelectual, é o de medir o tamanho de minha ignorância sobre qualquer assunto que me chega à discussão, já que não me permito o ridículo de debater, principalmente com a profundidade que vejo fazê-lo algumas pessoas sabidamente ignorantes do tema, questões que fogem aos meus limitados atributos intelectuais e culturais (e todos nós somos impressionantemente ignorantes na quase infinita vastidão do conhecimento produzido pelo homem), protagonizando situações vergonhosas como a de um paciente que insiste com o médico que o receitara uma injeção de vitamina B12, que “duas de B6” fariam o mesmo efeito.
Ou como alguém que teime com um eletricista que ligar um aparelho – para cujo funcionamento demanda corrente de 220 Volts – em duas tomadas “de 110” produzirá o mesmo efeito. Pois cada dia mais surgem, a respeito de fatos e elementos muitos deles comuns e corriqueiros no ambiente de processos judiciais, falas das mais absurdas, não apenas despidas de veracidade e lógica, mas revestidas de tamanha ignorância que parecem fruto de algum delírio dessas figuras acima mencionadas, afetadas por alguma moléstia mental. Ou, suspeito, tenham o propósito de, semeando o caos e a discórdia, confundir as pessoas de boa-fé (independentemente de suas matizes ideológicas), criado nelas a ideia de que as instituições nacionais (que sofrem, claro, como toda “empresa humana”, problemas e vícios) são, a rigor, uma espécie de entreposto de quadrilhas, com seus integrantes todos eles vinculados a empreitadas criminosas.
Ouvir de alguém que não tem a menor noção de como as coisas funcionam (como um matuto supersticioso que prefere morrer de inanição do que consumir “manga com leite”), de como se organiza o sistema judiciário, de quais são os limites de competência, de como funcionam as regras processuais, o sistema de recursos e o ambiente dos processos, que “decisão judicial ilegal não tem que ser cumprida”, ou que “quem manda no país é o fulano de tal”, ou insinuando que alguém, a quem a Polícia Federal ou o Ministério Público atribuiu a prática de um crime ou contra quem pediu a decretação de determinada medida prevista no ordenamento jurídico, é “preso político”, “vítima de uma trama armada para atacar a família e os homens de bem”, até que permite alguma compreensão, visto que, como dito, somos todos impressionantemente obtusos em relação à maior parte das coisas que nos cercam.
Porém, escutar isso de quem pelo menos possui um diploma de direito pendurado na parede, ou, pior, seu silêncio, quando essas falas surgem em postagens nas redes sociais, comentários feitos em matérias jornalísticas ou mesmo em “desafios” pessoais muito comuns nos ambientes sociais, a mim me repugna não apenas pelo viés do direito, mas pelo prisma da dignidade.
Debates são absolutamente necessários ao desenvolvimento de uma sociedade civilizada, e seu fomento impõe que opiniões diversas, às vezes diametralmente, sejam consideradas até o exato limite em que trazem embutidos conceitos e valores como “nazismo”, “escravidão” ou outras perspectivas desumanas e degradantes, ponto a partir do qual devem ser repudiadas com veemência.
Nos meios jurídico e judiciário são absolutamente saudáveis as divergências quando tratadas, com mais ou menos veemência, no propósito de construir, reparar ou melhorar alguns conceitos e práticas. É absolutamente comum e desejável que profissionais do direito, mais ainda as instituições que representam, se empenhem do aprimoramento de suas tarefas, na qualificação de suas rotinas, no fortalecimento de garantias e mecanismos capazes de promover o que se denomina paz social, visto que o oposto, qual seja a cacofonia de absurdos e inverdades, somente produz insegurança, incerteza, violência, desordem e dor.
É natural do ambiente político (sejam seus protagonistas investidos de mandato ou o próprio cidadão exercendo a defesa de seus valores e perspectivas) a dessintonia, a divergência, mesmo acaloradas refregas sobre variados assuntos, mas é inadmissível que, por omissão ou compadrio indecente de quem teve a oportunidade de estudar e conhecer como as coisas funcionam, determinadas práticas e condutas sejam vistas como “liberdade de expressão” ou “defesa de valores morais ou éticos” quando são, apenas e tão somente, ardis, artifícios, vetores de promoção do que se chama de “terra arrasada”, do indecente “quanto pior melhor”, principalmente quando seus resultados, ao permitimos que esse tipo de delinquência moral ganhe espaço, colhem, de modo inverso, dois únicos grupos de pessoas: de um lado um punhado de beneficiados pela degradação, como quem defenda que se ateie fogo a uma grande floresta para depois comprar as terras mortas por um preço ínfimo, e, de outro, centenas de milhões de indivíduos, aos quais vão chegar apenas os “boletos” para pagarem a “conta”, dentre eles muitos dos que “bateram palma para maluco dançar”.









