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13 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024
Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

O ser cabotino

Mania que tenho de desenterrar algumas palavras para usá-las ora como título, ora como tema desses artigos! Talvez porque, desde muito novo, tenha me apaixonado por elas, as palavras, que são, ao lado da roda, do ar-condicionado e de uma bem tirada tulipa de chopp, estupidamente gelado, as maiores invenções da humanidade. Pois nessa faina arqueológica de palavras e – aí é que mora o prazer – de seus significados, muitas vezes deparo-me com algumas, de raríssimo uso cotidiano, que mais parecem aqueles artefatos estranhos exibidos em museus, à primeira vista há séculos em desuso em decorrência de sua aparente inutilidade diante das invenções modernas, mas que, na verdade, continuam absolutamente atuais, funcionais, às vezes até mais eficazes que seus tecnológicos sucessores, como o filtro de barro, o lápis de ponta preta e o clip de papel.

O termo em questão deriva do francês “cabotin” (pronuncia-se “ca-bo-tân ”), e rotulava atores medíocres que viviam na corte de Luiz XIII, os quais, sem nenhum talento capaz de garantir-lhes admiração e popularidade em virtude de seu ofício, disfarçavam tal carência pelo excesso de afetação, de esquisitices no agir, no falar e no vestir, usando da pompa e das circunstâncias com imodesta presunção de que estavam agradando pela excentricidade ou, pelo menos, conseguindo evitar críticas em razão do medo que provocavam nas pessoas de escândalos ou do que hoje denominamos “tretas”, insinuadas ou ameaçadas a todos os que ousassem dizê-los meros palhaços vazios e tão somente travestidos de relevância.

Quatro séculos depois de seu batismo na França, poucas coisas estão mais em alta, poucos personagens mais em evidência que o cabotinismo e seu astro, o cabotino. Ele se apresenta nos palanques, nas tribunas, nos eventos públicos ou privados, em todos os ambientes sociais e diante de qualquer público, independente de classe social, econômica ou cultural, de grau de escolaridade, endereço ou nacionalidade. Pouco importa o conteúdo de seu discurso, muito pelo contrário, aliás, visto que quanto mais estapafúrdio mais impacto provocará!

Aplausos e vaias não são contabilizáveis já que seu objetivo não é convencer, criticar, provocar reflexão ou mudanças, mas simplesmente causar, atrair multidões independente de flores ou tomates que lhe são lançados em cima, como seus tataravós franceses. Sua contabilidade, portanto, é assumidamente ordinária e lastreada naquela premissa “falem mal, mas falem de mim”.

O tal ser cabotino, importante sublinhar, não se preocupa nem procura interagir positivamente com ninguém elogiando, agregando ou reconhecendo valor às pessoas, suas conquistas ou ideias porque, na sua forma de pensar e agir, isso lhe mantém no ocaso, no lugar-comum daqueles que se contentam apenas com obviedades, portanto sem chance de sobressair-se aos demais ora porque não lhe interessa a felicidade alheia, ora porque, em maior parte das vezes, lhe consome as entranhas a inveja de não possuir, não ser ou não conseguir atingir aquele êxtase, aquele resultado.

Seus “instrumentos de trabalho” são – e de forma sempre excessivamente abusada, afetada e barulhenta – denegrir, detratar, espezinhar seu alvo, diminuindo-lhe o valor ou acentuando fatos absolutamente prosaicos, como alguém convidado a conhecer um festejado restaurante de luxo que sai do lugar reclamando, entusiasticamente, da fechadura da porta do banheiro. Quando não encontra ou vislumbra qualquer elemento capaz de lhe sustentar a virulência, ele deturpa, cria, inventa ou compartilha algum fato que sabe ser falso (ou sequer tem a capacidade ou o cuidado de avaliar), já que seu intento, como já dito, é “aparecer”, indiferente às críticas ou, até xingamentos, ao seu agir injusto, mentiroso, indelicado ou violento.

O fenômeno das “fake news”, mais antigo que o rascunho da Bíblia, tem o cabotinismo como pilar central de sua existência. Somos, todos, invariavelmente fadados ao erro, ao desajuste, ao desvio de perspectivas e às más avaliações, porque isso faz parte de nossa natureza humana. Muitos corrigimos, aprendemos com nossos próprios erros ou com os alheios, acertamos rotas, repensamos e reavaliamos, porque também é de nossa constituição mental buscarmos o correto, o satisfatório ou mesmo o tolerável, conforme as circunstâncias.

Nosso personagem, entretanto, não têm esses processos reflexivos ou de autojulgamento em seu horizonte existencial talvez porque completamente cônscio de suas diminutas condições, talvez porque mais lhe interessa derrubar o outro, nivelando-o a si em sua pequenez, do que crescer ao seu nível, ombreá-lo em seus valores e reconhecimento.

Como dito no início deste texto, os tais atores franceses do início do século 17 eram reconhecidamente charlatões, bufões, despreparados e malquistos e, por isso tudo, acreditavam que açulando inimizades, expondo questões íntimas ou promovendo escândalos, traziam todos de seu entorno ao seu mesmo pântano cotidiano. Em vários casos tinham êxito, já que não são todos de nós que conseguimos passar ao largo, absorvendo ou sublimando esses ataques e assaques, sem respondê-los. E é exatamente aí, nesse ponto, nessa resposta, que reside o sucesso do cabotino, um momento, para ele, como deve ser para um artista “receber um Oscar”: sua estratégia e suas táticas deram certo! Ele, não importa o preço, atingiu seus objetivos: afetou, chamou atenção sobre si, incomodou, enfim, sua existência foi notada.

Diante de tais figuras, e de seus “teatros”, não funcionam o piedoso perdão, a generosa compreensão nem, muito menos, o ódio reativo ou alimentado, já que esse último mais nos intoxica do que a ele, certamente imune em razão de tanto conviver com esse sentimento; mas a indiferença, a exclusão do convívio real ou virtual, a anestesia fruto da desimportância, essas ações são extremamente eficazes em termos de proteção ou de curativo.

Não se costuma dizer que “do veneno é que se extrai a droga mais eficaz contra seus efeitos”?

Ora, animais peçonhentos fazem parte do mundo e existem em qualquer lugar.

Exterminando alguns aqui, logo aparem outros ali. Precisamos apreender a conviver com eles, conhecendo-lhes os hábitos, o modo de agir e, acaso inevitavelmente esbarremos com alguns deles cruzando nossos caminhos, que tenhamos à mão os tais “antídotos ou soros” para imediata inoculação.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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