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13 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024
Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

Conserto e concerto

Na faina recente de recolher e separar donativos para os afetados pelas chuvas há poucas semanas em Mimoso do Sul e, recentemente, no Rio Grande do Sul atentei para o conteúdo de algumas dessas sacolas. Em algumas delas vi roupas e objetos completamente inservíveis, como peças rasgadas, pés de tênis e sapatos desacompanhados do outro, equipamentos estragados, alguns deles eletrônicos, com pilhas estufadas, mostrando que há anos já não prestavam mais. Dentre essas peças, dessa vez, não vi colchoes, mas imagino que alguns deles devem ter sido recebidos em doação com marcas denunciando terem sido urinados por vários anos, nem tampouco liquidificadores sem o copo, televisões com a fonte ou a tela quebradas, etc, mas já ouvi que fizeram número em algumas dessas remessas.

Quando imagino doar alguma coisa, primeiro vejo se a tenho comigo, usada e em duplicidade, ou mesmo nova e sem uso até aquele momento, mostrando que pelo menos a mim não foi necessária até então, ou, no caso primeiro, de que já o foi, mas como tenho aquilo de sobra, melhor serventia terá quem nunca a teve, ou quem a perdeu em condições trágicas. Quem doa sangue ou um órgão seu, ou de algum familiar falecido, além do ato de generosidade, um dos valores que nos diferencia do resto dos animais, também acredita na utilidade que aquilo terá a alguém, ou a muitos, e a soma dessas duas premissas catalisa-se em solidariedade.

Por mais generosa a pessoa ou a família que se dispõem a fazer esse tipo de ato de amor, quando o doador de sangue se enquadra dentro daquelas situações que vedam sua transfusão (portados de hepatite, doenças autoimunes etc.), ou quando o falecido ente já ultrapassara determinada faixa etária, seu gesto, ainda que digno de todas as considerações positivas, não conseguirá minorar o sofrimento de quem os necessita, ou lhe causará problemas maiores.

O mesmo acontece com quem doa vestuário, equipamentos, comida ou qualquer coisa estragados, incompletos, vencidos ou que demandam muito mais cuidados e reparos do que se efetivamente faltassem, pesando na carga dos veículos que os transportam, ocupando as pessoas que os embalam e fazem sua triagem, e, pior que tudo, exigindo, muitas vezes, desvio de atenção e de recursos de voluntários para dar aos mesmos o destino que seus antigos donos já deveriam ter dado: o lixo.

Doação, definitivamente, não é vetor de descarte nem justificativa para abrir espaço em armários entupidos de quinquilharias para receber outras. É ato de amor, de entrega, de comprometimento, de empatia, de vida. A segunda coisa que me chamou a atenção (ainda mais, porque sou observador antigo desse fenômeno) foi no sentido diametralmente oposto à primeira situação acima ilustrada: roupas e equipamentos novos e jamais usados, alguns deles ainda com etiqueta da loja ou embrulhados nas suas caixas, mas nitidamente comprados ou recebidos há muitos anos.

A compulsão do consumo, impulsionado pela vaidade da moda e pela necessidade de demonstrar-se alguém mais rico, poderoso ou agradável do que os que vivem em nosso entorno, vem impactando e corroendo a vida econômica de cada vez mais gente, exigindo de muitos viverem em um labirinto eterno de dívidas, empréstimos ou, quando não mais possíveis, lançarem mão de bens que levaram anos para adquirir para o pagamento das suas dívidas. Nesse segundo grupo incluo também aquelas coisas que nos exigiram esforço para adquiri-las, mas quando as conseguimos, ao primeiro sinal de desgaste, dano ou defeito, simplesmente as descartamos ao argumento de que comprar uma nova vale muito mais que seu conserto.

Esse último comportamento provoca dois efeitos: o primeiro, dá-se na cada vez mais precária qualidade do que se produz e se oferece à consumo, já que se ao consumidor o que importa é conseguir comprá-lo, por qual razão o fabricante irá se esmerar em fazê-lo bem-feito a ponto de durar vários anos?

E o segundo, o cada vez mais cavalar aumento dos montes de lixo industriais, detonando o meio ambiente e avançando o processo de transformação do planeta em um lugar finalmente inabitável em condições normais, o que começo a suspeitar ser o desejo de algumas pessoas que já se programaram para vender “paraísos estanques” para os mais privilegiados.

De tudo, a reflexão que me propus: há ainda conserto em vida que nos garanta uma vida em concerto, ou já ultrapassamos o ponto de não retorno e a conta do inferno, aqui mesmo na Terra, já começou a ser exigida em escorchantes e impagáveis prestações?

 

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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