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21 de fevereiro de 2024
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
Guilherme Lacerda
Guilherme Lacerda
Economista, com longa experiência na academia e com diversificada atuação nos setores público e privado, Guilherme Narciso de Lacerda foi Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Belo Horizonte, Diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES), Secretário de Planejamento do Estado do Espírito Santo, Secretário de Finanças da Prefeitura de Vila Velha, Presidente da Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) e Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As colunas de Guilherme Lacerda serão publicadas em ESHOJE quinzenalmente, sempre às segundas-feiras. Seu histórico profissional dará base para opiniões que refletem, somente, a opinião do colunista. Como economista tem participado da estruturação de projetos de concessão/PPPs e elabora diagnósticos e estudos econômicos corporativos e sobre a conjuntura nacional.

Juros imorais e inflação sobre controle no Brasil

O Banco Central decidiu na última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM-20 e 21 de junho) pela manutenção da taxa de juros básica (SELIC) em 13,75% ao ano e assim irá ficar até a próxima reunião no início de agosto.

Essa foi a sétima reunião que o COPOM manteve tal taxa, em vigor desde o início de agosto do ano passado.

Mais uma vez, as críticas à decisão tomada vieram de diversas fontes e foram até mais generalizadas, estendendo-se a vozes próximas a segmentos do mercado financeiro. Mas, as reações ainda são insuficientes, diante dos desdobramentos maléficos desta postura institucional.

A ata da reunião mostrou que houve visões divergentes dentro do colegiado acerca de se iniciar os cortes na taxa básica.  Há indicações de que isso ocorra na próxima reunião, mas se assim for, tudo indica que será em doses muito pequenas, tendo impactos restritos na economia real.

Quase que simultaneamente à decisão do BC foi divulgada pelo IBGE a prévia da inflação de junho, com o IPCA-15 (1ª quinzena) ficando muito próximo de zero (exatos 0,04%). Com isso a inflação brasileira dos últimos 12 meses caiu para 3,9%, situando-se dentro do intervalo da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (e aproximando-se do seu alvo de 3%).

As previsões para a inflação anual de 2023 tem se reduzido semana a semana, estando hoje entre 4,5% e 5%. Seja como for, o conservadorismo do BC segue forte, sustentando a maior taxa de juros real do planeta, a qual já supera os 8,5% ao ano, sem justificativas tecnicamente plausíveis para isso.

Essa dimensão dos juros em nosso país é uma calamidade. O Brasil tem atualmente uma inflação mais baixa que a grande maioria dos países centrais e dos emergentes. Na zona do Euro a taxa anual está em 6%, nos EUA está em 5%. O crescimento da inflação em todo o mundo ocorreu a partir de meados de 2021 e se sustentou até meados do ano passado em praticamente todo o mundo em razões dos impactos da pandemia de COVID 19, com as medidas governamentais de auxílio e as desorganizações das cadeias de suprimentos de insumos. A invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022 alimentou as altas de preços ao atingir adicionalmente os circuitos de produção e de transportes, especialmente de energia fóssil e de commodities agrícolas.

As causas principais que levaram aos soluços da inflação nos anos recentes no nosso país não têm vinculação causal com pressões de demanda interna. Pelo contrário, as estatísticas mostram que o consumo das famílias se mantém contido faz tempo; as recuperações obtidas ainda são marginais. Os dados do IBGE mostram que o rendimento médio mensal real domiciliar esteve em queda desde muito antes do período da pandemia. As recuperações nos meses recentes são restritas e os valores ainda continuam distantes do patamar obtido até 2012.

A sociedade brasileira precisa ir mais fundo no entendimento das implicações de termos juros tão elevados. Há uma densa transferência de valor gerado em toda a economia real para os circuitos financeiros, com a expansão rápida e forte do endividamento do setor público. Os juros estratosféricos atuam como sugadores dos nutrientes do organismo produtor da economia e realimenta a concentração de rendas. Uma consequência direta é o aumento das dificuldades do governo para destinar recursos para investimentos e para custeio dos programas sociais e administrativos.

As recentes Atas do COPOM compõem uma narrativa fake pois mostra uma aparente performance apenas técnica. Os conceitos e os argumentos de causalidades e consequências da dinâmica econômica do país sãodemonstrados em textos herméticos, de árdua interpretação para a sociedade em geral. Os escritos sugerem que apenas um pequeno grupo de ungidos conhece as tecnicidades que sustentam seus argumentos e nada mais há que se fazer, além do que lá está colocado. Mas, caros leitores, ali se tem apenas uma versão assentada em uma concepção econômica que não corresponde aos fatos. Nesta última ata, por exemplo, o colegiado reconheceu que os ambientes externo e interno apresentavam-se com reduzidos sinais de turbulências. Não obstante, reiteraram que os juros internos precisavam ficar onde estão pois pode ser que daqui a pouco os ventos mudem.

Pode parecer para alguns que estamos simplificando odiagnóstico, mas não é isso. De fato, os termos da última ata desnudam uma postura fria, alheia a uma realidade econômica incômoda e composta de seres vivos que lutam para sobreviver. O fato de existir um contingente de novemilhões de desempregados fica fora da narrativa.

É obrigação legal do Banco Central também perseguir uma satisfatória geração de empregos. Está escrito no artigo 1º da Lei que concedeu autonomia ao Banco Central (Lei Complementar 179 de 24/02/2021) que complementarmente à estabilidade de preços o BC também precisa se empenhar para preservar “a estabilidade e a eficiência do sistema financeiro, suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego”.

Porém, este objetivo da geração de emprego no país está longe das preocupações do Banco Central. Pelo contrário, há nos textos das suas atas quase um regozijo com as constatações de que o mercado de trabalho continua com uma alta disponibilidade de mão de obra.

Um dos determinantes desta situação perversa em nosso país é a taxa de juros. Os analistas financeiros que fazem loas às decisões emanadas do COPOM e os seus próprios diretores desconsideram que os juros são itens do custo de produção e que, com juros reais tão elevados os impactos aparentemente favoráveis de atração de capitais externos ficam circunscritos às esferas especulativas.

Ocorreu no primeiro semestre do corrente ano um conjunto de acontecimentos favoráveis nas dimensões política e econômica que levam a uma melhoria do humor para investimentos e para acicatar o empreendedorismo. Há vários indicativos de tal ambiente favorável, com o governo federal cumprindo suas propostas de campanha e demonstrando mais uma vez seu compromisso com a disciplina fiscal.

Contudo, o que destoa e trava a expansão de nosso país é a taxa de juros obscena que se sustenta já por quase um ano, em uma circunstância que já não se justifica. Portanto, é fundamental que haja um engajamento maior de lideranças empresariais, sindicais e de formadores de opinião no esclarecimento da sociedade e no clamor para extirpar esta anomalia nacional.

Guilherme Lacerda
Guilherme Lacerda
Economista, com longa experiência na academia e com diversificada atuação nos setores público e privado, Guilherme Narciso de Lacerda foi Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Belo Horizonte, Diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES), Secretário de Planejamento do Estado do Espírito Santo, Secretário de Finanças da Prefeitura de Vila Velha, Presidente da Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) e Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As colunas de Guilherme Lacerda serão publicadas em ESHOJE quinzenalmente, sempre às segundas-feiras. Seu histórico profissional dará base para opiniões que refletem, somente, a opinião do colunista. Como economista tem participado da estruturação de projetos de concessão/PPPs e elabora diagnósticos e estudos econômicos corporativos e sobre a conjuntura nacional.

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