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21 de fevereiro de 2024
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
Guilherme Lacerda
Guilherme Lacerda
Economista, com longa experiência na academia e com diversificada atuação nos setores público e privado, Guilherme Narciso de Lacerda foi Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Belo Horizonte, Diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES), Secretário de Planejamento do Estado do Espírito Santo, Secretário de Finanças da Prefeitura de Vila Velha, Presidente da Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) e Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As colunas de Guilherme Lacerda serão publicadas em ESHOJE quinzenalmente, sempre às segundas-feiras. Seu histórico profissional dará base para opiniões que refletem, somente, a opinião do colunista. Como economista tem participado da estruturação de projetos de concessão/PPPs e elabora diagnósticos e estudos econômicos corporativos e sobre a conjuntura nacional.

O exemplo dos indiozinhos colombianos, o valor da vida e a meritocracia

Faço uma pausa nos artigos voltados para assuntos econômicos que escrevo quinzenalmente nesta mídia social para tratar, dessa vez, do resgate das quatro crianças indígenas que sobreviveram de um acidente aéreo na Amazônia colombiana e sozinhos resistiram até serem encontrados depois de quarenta dias.

O acontecimento impressiona pelo que se tem até agora de notícias, embora os detalhes ainda não estejam esclarecidos em função da delicada condição de saúde dos sobreviventes.

Os indiozinhos foram encontrados em uma busca que envolveu mais de 300 pessoas entre militares colombianos e membros dos povos indígenas conhecedores do habitat amazônico, numa região totalmente inóspita. As buscas feitas desde o dia do acidente, em 1º de maio último, foram rotuladas de “operação esperança” e depois, quando as crianças foram encontradas com vida, todos reconheciam que havia ocorrido um milagre.

As quatro crianças sobreviventes têm as idades de treze, nove, quatro e um bebê de apenas um ano. No acidente aéreo os três adultos que os acompanhavam faleceram. O noticiário informa que a mãe dos meninos os orientou a ir buscar ajuda e eles partiram carregando apenas farinha.

É para nós, urbanos, difícil de imaginar como aquelas crianças sobreviveram. Como os mais velhos resistiram e conduziram os mais novos e bebê a salvo junto com eles por tanto tempo.

A mensagem mais relevante que nos chama a atenção e nos motiva a escrever é pensar como que o saber originário dos povos da floresta tem um valor imenso que nós, urbanos, e classificados erroneamente como aculturados, desconhecemos.

Inexoravelmente, o que presumimos ter acontecido, sem termos os detalhes, foi que as crianças tinham uma disposição imensa de resistência e utilizaram todo o aprendizado recebido para conviver com as adversidades do meio em que estavam.

Na Colômbia, muitos lideres indígenas consideram que os seus indiozinhos sobreviveram por causa do Deus Natureza que retribuiu a eles o respeito que eles nutriam por ela. Esta narrativa pode parecer estranha para a nossa racionalidade. Mas, como explicar então que quatro pessoas ainda em formação, em idades tão tenras, conseguem resistir a tanto sofrimento?  As informações são as de que eles haviam sido picados por insetos, morcegos, apresentavam feridas, inclusive um deles tinha larvas em um dos ouvidos. Ao serem encontrados haviam perdido um terço de seus pesos.

O acontecimento tão excepcional daqui a pouco será esquecido. Vivemos em um redemoinho de informações diárias que nos leva à não fixação em fatos isolados, por mais destoante da normalidade cotidiana que seja. Mas antes que ele fique rarefeito em nossa memória é recomendável que meditemos sobre a força que as quatro crianças indígenas tiveram. O que podemos tirar desta excepcionalidade?

A força da vontade de viver é um fenômeno interno dentro de cada um de nós que, quando está ativa, gera uma capacidade incrível de superação das dificuldades que enfrentamos, por maior que elas sejam. Essa é a mensagem principal. Outro ensinamento que salta aos olhos é o de respeitar para valer o conhecimento prático daqueles que vivem e convivem afastados das revoluções cientificas e tecnológicas que transformaram as sociedades modernas nos aglomerados urbanos em todo o canto.

O saber popular, o saber dos povos das florestas e dos campos é um saber que precisa ser reconhecido como parte intocável da formação humana de uma sociedade. A sobrevivência dos quatro indiozinhos só aconteceu porque eles dialogaram por quarenta dias e noites com a “madre selva”, a qual lhes deu sustento em condições quase que impossíveis de serem vencidas. Eram seres humanos ainda em formação e, como tal, não tinham energia e força física suficientes para ter mais resistência.

A luta pela sobrevivência é uma condição primeira que subordina o comportamento humano. Em todos os quadrantes da terra há grandes parcelas de populações carentes que enfrentam restrições materiais que as impede de exercerem na plenitude seus direitos de cidadania.

O valor da vida para as comunidades sociais mais sofridas é colocado à prova continuamente. Nem sempre as famílias conseguem ter condições de superar os riscos diários que se apresentam. Essa é uma face da realidade social que aqueles que não a vivem, não a reconhecem. O pior de tudo é que aqueles que não reconhecem as dificuldades que certos grupos sociais enfrentam tornam-se insensíveis, sem empatia e incapazes de aceitarem os mínimos sacrifícios para atenuar e transformar tais situações. Essa é uma reflexão que deveria ser permanente.

Aliás, seria interessante saber a opinião daqueles “bem sucedidos” que avocam despudoradamente o discurso da meritocracia para justificar seus êxitos. Como esses meritocráticos teriam se saído se estivessem no lugar das quatro crianças?

A sobrevivência de Lesly, Soleiny, Tien e Cristin – estes são os nomes dos pequenos indígenas colombianos – deveria ser um acontecimento que nos levasse à reflexão sobre como somos perante o sofrimento daqueles que estão em condições diferentes de nós e como reagimos perante os valores de culturas tradicionais.

Guilherme Lacerda
Guilherme Lacerda
Economista, com longa experiência na academia e com diversificada atuação nos setores público e privado, Guilherme Narciso de Lacerda foi Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Belo Horizonte, Diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES), Secretário de Planejamento do Estado do Espírito Santo, Secretário de Finanças da Prefeitura de Vila Velha, Presidente da Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) e Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As colunas de Guilherme Lacerda serão publicadas em ESHOJE quinzenalmente, sempre às segundas-feiras. Seu histórico profissional dará base para opiniões que refletem, somente, a opinião do colunista. Como economista tem participado da estruturação de projetos de concessão/PPPs e elabora diagnósticos e estudos econômicos corporativos e sobre a conjuntura nacional.

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