O Espírito Santo tornou-se, nos últimos anos, um caso relativamente raro no Brasil: equilíbrio fiscal consistente, capacidade de investimento preservada, previsibilidade institucional e indicadores sociais que, embora longe do ideal, evoluíram acima da média nacional em algumas áreas estratégicas. Esse ativo não é trivial. Foi construído com disciplina política e coordenação administrativa ao longo de vários governos.
Justamente por isso, a próxima eleição estadual não deveria ser tratada como mera disputa de protagonismo. E, no entanto, o que temos assistido é um debate concentrado em nomes, alianças e engenharia de viabilidade.
Dirão que ainda não estamos oficialmente em campanha. É verdade. Mas o que se pede não é um plano de governo detalhado. Longe disso é tudo a seu tempo. O que se espera é algo anterior ao marketing eleitoral: a explicitação de visões distintas de Estado. Porque, se não houver diferenças estruturais de entendimento sobre o Espírito Santo, não haveria razão para tantas pré-candidaturas — a menos que as disputas estejam muito mais no campo da vaidade e da necessidade de se manter no poder.
Vemos Lorenzo Pazolini, Arnaldinho Borgo, Ricardo Ferraço e Helder Salomão se movimentando com legitimidade. O jogo político é parte essencial da democracia. O problema não é a articulação. É a ausência de horizonte declarado.
O Espírito Santo tem hoje uma das melhores avaliações de gestão fiscal do país e mantém grau de solvência que muitos estados ainda tentam reconstruir. A capacidade de investir em infraestrutura e serviços públicos depende dessa base. A pergunta central, portanto, não é quem herdará essa condição — mas o que fará com ela.
Há três caminhos possíveis diante de um Estado organizado: administrar a estabilidade, aprofundá-la ou utilizá-la como plataforma de transformação estrutural. São escolhas políticas. E escolhas políticas exigem visão.
Qual é a estratégia para segurança pública num cenário em que o crime organizado se reorganiza em redes e a violência urbana se reinventa? Qual é o desenho de desenvolvimento num mundo que transita para economia verde, transição energética e cadeias globais cada vez mais exigentes? O Espírito Santo quer ser apenas porto logístico eficiente ou polo tecnológico integrado? Quer interiorizar crescimento ou concentrá-lo?
Essas perguntas não são prematuras. São fundacionais.
Quando o debate se restringe a nomes, instala-se o personalismo. E personalismo, em excesso, costuma derivar para obsessão. A candidatura deixa de ser instrumento e passa a ser fim em si mesma. O cargo se converte em destino pessoal, não em responsabilidade pública. O adversário deixa de ser alguém com projeto distinto e vira obstáculo biográfico.
Essa é a fronteira entre paixão saudável e obsessão política.
Paixão quer vencer para transformar. Obsessão acredita que merece vencer. A primeira escuta pesquisas, conselhos, sociedade civil. A segunda tende a desacreditar qualquer dado que contrarie sua expectativa. A primeira reconhece que o eleitor é soberano. A segunda, ainda que não admita, passa a tratá-lo como detalhe operacional.
Governar exige algo menos performático e mais estrutural: capacidade de escolher prioridades em ambiente de restrição fiscal, de arbitrar conflitos entre setores produtivos, de equilibrar crescimento com sustentabilidade. Isso não nasce de marketing. Nasce de visão de Estado.
O Espírito Santo já demonstrou maturidade institucional ao atravessar crises nacionais com estabilidade. Reduzir a próxima eleição a uma competição de quem articula melhor seria subdimensionar esse patrimônio coletivo.
Ainda não é campanha formal. Mas já é tempo de maturidade argumentativa. O eleitor capixaba não é plateia de bastidor. Ele é coproprietário do futuro estadual.
No fim, a pergunta que decidirá a eleição não será quem construiu a melhor aliança — mas quem apresentou a compreensão mais consistente sobre o que fazer com um Estado que, diferentemente de muitos outros, está organizado.
A disputa começa nos nomes.
Mas se legitima nas ideias.









