Se nenhum efeito miraculoso ocorrer dentro de 48 horas, nesta sexta-feira, 1º, toda produção made in Brasil que desembarcar em solo norte-americano, seja pelo ar, por terra ou mar, será taxada em 50%. E enquanto o presidente Lula se equilibra entre as tentativas de negociação com o governo americano e os duros discursos contra a figura de seu presidente Donald Trump, os brasileiros se pintam para uma guerra que embora esteja ancorada no campo das narrativas, espraia para as ilhas da razão.
Antes, caro leitor, permita-me fazer um breve prelúdio sobre para onde aponta o ponteiro de nossa bússola.
Desde que a comunicação se tornou horizontal, ofertando voz a todos nós, a relação da sociedade com os políticos deixou de ser referencial: hoje, o que o cidadão busca na figura do agente público é identificação. Em resumo: os outrora representantes populares passaram a ser ídolos de legiões de séquitos e fãs.
Muito comum em cenários como esses, as brigas de torcidas rendem ataques, louvação e memes, que alimentam os ídolos, tornando-os cada vez mais fortes. Estes, por suas vez, retroalimentam seu público com o acirramento das disputas: o show, então, agrada à plateia, que aplaude e pede bis. Essa é a face da política — não somente brasileira — hoje.
Acontece que, embora seja a emoção a tônica dos palcos, na coxia o pano de fundo continua tendo a razão em seu roteiro.
O cidadão escolhe determinado lado político a partir de seus valores, mas isso não o inibe de elencar uma série de cobranças programáticas a seus representantes e, independentemente da sua ideologia, as necessidades vão continuar apontando para caminhos muito semelhantes: vagas em escolas, atendimento de saúde de qualidade, segurança para as famílias, ofertas de emprego, qualificação profissional, entre tantas outras questões sociais. Temos, portanto, um cenário com disputa polar carregada de fortes apelos emocionais, mas sempre ancorada em desejos bem racionais.
Quem entender mais rapidamente os valores, as crenças e as atitudes desse público tende a levar mais vantagem.
Enquanto Lula se equilibra entre o Palácio e o palanque, brasileiros refletem sobre os impactos das decisões do governo norte-americano e a reação do governo brasileiro. Reportagem publicada pelo jornal O Globo no último domingo, 27, revela que mesmo diante dos contornos ideológicos que ganharam os atos da sobretaxação de Trump ao Brasil, os brasileiros buscam identificar racionalidade nos movimentos de seus políticos de estimação. Ouvidos pela reportagem do Globo, moradores de diversas regiões do país se dividiram entre a reação do governo brasileiro ao tarifaço e a postura da família Bolsonaro.
“Não baixar a cabeça para Trump foi a atitude correta”, registrou a empresária Letícia Ferreira, de Salvador, avalizando o posicionamento do governo brasileiro. “Com Lula, perdi poder de compra”, reclamou o taxista paulistano Walter Dias, que diz não enxergar, no campo bolsonarista, alguém com experiência suficiente em gestão para substituir o atual presidente.
A retórica emocional é, sempre foi e continuará sendo a que arrebata corações na política, sobretudo em períodos eleitorais. No entanto, o eleitor tem apresentado lucidez, com pensamentos mais organizados, ao realizar suas escolhas. No documentário ‘Apocalipse nos Trópicos’, da cineasta Petra Costa, uma das personagens, de origem muito simples, elogia, com certa eloquência, os resultados dos três governos do presidente Lula, mas garante que, apesar disso, escolhe, conscientemente, Bolsonaro “por seus valores estarem mais próximos” aos dela.
Em resumo: uma senhora da periferia reconhece os avanços dos governos do PT no campo das políticas públicas, mas vota a partir de seus valores. As escolhas, antes feitas a partir de discursos eivados de arroubos e tapas na mesa, agora ganham contornos mais racionais — mesmo que as decisões passem ao largo da materialidade das propostas e se aproxime mais do criacionismo retórico.
Diferentemente de 20 anos atrás, quando escutávamos, inertes, aos discursos políticos na televisão durante a propaganda eleitoral ou quando o máximo de manifestação a que tínhamos direito era nos concorridos espaços destinados às cartas dos leitores no jornais impressos, hoje é possível emitir opinião e cobrar diretamente dos representantes políticos nas redes sociais. Houve um estreitamento da comunicação na mesma medida em que se criou uma espécie de veneração dos políticos, que escalaram da figura representativa para a de celebridades, dada a performance que exibem em rede.
As pesquisas mostram que o país está dividido em uma calcificação político-ideológica que oferece uma pequena margem de 10% de oscilação entre o eleitorado de um lado a outro, como avaliou o cientista político Felipe Nunes, da Quaest. Logo, esse pequeno percentual definiria a eleição. Por outro lado, é um equívoco considerar que os fã-clubes são formados por bandos de néscios e fanáticos que não percebem os palcos em que estão inseridos; eles reconhecem quando a apresentação de seus ídolos está decaindo e sabem cobrar de seus líderes, seja por meio das redes sociais ou nas urnas.
Em 2022, por exemplo, boa parte daqueles que escolheram Lula queria não dar vantagem a Bolsonaro. Assim foi em 2018, quando o voto antipetista favoreceu o bolsonarismo e o ressurgimento da direita puro-sangue brasileira.
O Brasil dos últimos 30 anos já foi governado por um sociólogo, um ex-torneiro mecânico, uma ex-guerrilheira, um advogado e um militar reformado. Não importa a coloração ideológica de quem
ocupou o Palácio do Planalto: determinadas políticas públicas se consolidaram ainda que a polarização pareça sem espaço para uma trégua.
Direita e esquerda se engalfinham nas redes e nos plenários de Câmara e Senado. Mas não ousam mexer nas cotas para estudantes negros e de baixa renda nas universidades públicas; no Sistema Único de
Saúde (SUS); e nos programas de renda mínima como o Bolsa Família. Este ano, os dois lados chegaram até a concordar que era preciso dar um basta no uso de celular por jovens nas escolas, e aprovaram juntos, no Congresso, a proibição do acesso ao aparelho nas salas de aula pelo país.
Enquanto Lula se equilibra entre o Palácio e o palanque, há quem pregue por aí a “anti-polarização”, discurso de quem está no meio desse cabo de guerra tentando imiscuir algum protagonismo. Desde os eventos de rua de 2013, quando foi gestada, a polarização não vai deixar de existir tão rapidamente, mas promete ser cada vez menos figadal e mais acautelada.









