Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Oi, sou eu de novo!

Oi, sou eu de novo!

A direita brasileira entendeu bem como funcionam as redes sociais e a melhor forma de capturar a atenção de quem transita por esse ambiente costumeiramente tóxico da internet. O algoritmo privilegia conteúdos com viés negativista. Basta perceber como vídeos que retratam tragédias humanas têm muito mais apelo (ou engajamento) que imagens de ações que promovem o bem. O flagra de alguém que sucumbe a uma cratera aberta numa avenida paulistana recebe mais likes que um novo albergue para pessoas em situação de rua. A imagem de um meteoro que se aproxima da Terra retém mais a atenção do que a descoberta de uma nova vacina. É assim que funciona o mecanismo de distribuição das redes. A tragédia vende muito mais.

Por ter se contentado, durante décadas, com a direita-nutella que o Brasil tinha, os simpatizantes desse espectro da política nutriram certo desprezo pelos partidos e pelas figuras do lado mais à esquerda da régua ideológica. Por isso, não perdem sequer a mínima possibilidade de assacar seus oponentes. Daí o sucesso vídeos como os do deputado federal Nikolas Ferreira.

A linguagem e a estética das produções do jovem parlamentar mineiro são feitas sob medida para o público da internet. Seus argumentos podem até não ser os melhores ou totalmente críveis para alguns, mas inexoravelmente têm forte carga emocional, que é a tônica mais emergente do universo digital. A esquerda, quando tenta rivalizar com Nikolas, falha ao oferecer uma narrativa técnica e burocrática, sem qualquer viés que desperte sentimentos como ódio, paixão, esperança ou angústia. Os níveis de dopamina e ocitocina em nosso cérebro só são elevados à medida que nossos sentimentos se afloram: prazer, decepção, revolta, agonia.

O conhecido vídeo do Pix, feito pelo deputado bolsonarista, foi assistido 330 milhões de vezes — número subestimado, já que ele também foi compartilhado por aplicativos de mensagens. O último, sobre o INSS, logo, logo deve bater 150 milhões de visualizações. Isso se converte em votos? Não automaticamente. Mas as possibilidades de que o deputado seja mais conhecido e tenha suas ideias adoradas (ou rejeitadas) são maiores que as de figuras que alcançam menos pessoas com suas produções. No vídeo que antagonizou o de Nikolas, o deputado federal André Janones foi visto por 3,3 milhões. Número muito, muito distante dos registrados pelas últimas publicações do protagonista, que ocupa as quatro primeiras colocações entre os 10 vídeos mais assistidos da história das redes sociais brasileiras. Alguém que talvez se assemelhe a Nikolas, na forma, é a deputada Érika Hilton, que em sua crítica ao vídeo do colega de parlamento atingiu 105 milhões de pessoas: “Estão mentindo para você”, iniciou ela, chamando a atenção para o que viria a seguir.

“Oi, sou eu de novo!”. É assim que Nikolas abre seu novo blockbuster digital. Mais simples, impossível, para, ao longo da peça, desfiar uma série de argumentos com menos números enfadonhos e mais gatilhos à psiqué humana. A primeira lição que um político tem de aprender quando se dirige às massas é que ele está falando com gente. Entender o funcionamento cerebral e as respostas do comportamento humano é tão ou mais importante do que o que se vai dizer. Nestes casos, a forma está um degrau acima do conteúdo. Dessa maneira, o menos preparado pode parecer ser o mais apropriado, enquanto aqueles com argumentos mais sólidos, à luz da racionalidade, assumem o lugar de meros burocratas.

Na política, a razão só faz sentido se vier acompanhada de uma generosa dose de emoção.

Os ensinamentos da eleição de Leão XIV para a política

A Igreja é um ambiente altamente político. Sempre o foi, desde que era associada plenamente ao Estado. Os conclaves, que elegem os papas, são precedidos de intensas campanhas eleitorais, inspiradas pelo Espírito Santo, como os cardeais fazem questão de realçar, mas com movimentos claramente políticos, oriundos dos seres humanoides. Prova disso são os dossiês, favoráveis ou contrários a um ou outro cardeal expoente, que emergem e efervescem às vésperas do sufrágio.

Robert Francis Prevost foi criado cardeal pelo Papa Francisco há menos de dois anos, portanto, teoricamente teria menos chances de ser conhecido, não fosse sua projeção como prefeito do Dicastério, organismo da Igreja que nomeia, e eventualmente excomunga, bispos por todo o mundo.

Não posso asseverar, nem me cabe especular, que Prevost tenha usado de seu cargo para fazer campanha, mas é incontestável que a proeminência do posto que outrora ocupava o ajudou a servir de alguma referência aos que estavam na Capela Sistina. Prevost era um jovem cardeal, sequer sabia como funcionava um conclave e chegou a se aconselhar com o colega cardeal filipino Luís Antonio Tagle. Mas foi escolhido Papa pois, afora outras qualidades, esteve, de alguma forma, na memória dos colegas eleitores.

Na política, os espaços de poder são importantes. Eles têm a capacidade de promover, para o bem ou para o mal, figuras políticas. Se bem usados, garantem sucesso eleitoral. Tal qual ocorre na Igreja, nem sempre há unanimidade e, muitas vezes, determinadas escolhas acabam por dividir uma nação. Aos “perdedores”, resta o respeito e a obediência a quem foi eleito pela maioria.

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]