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16 de abril de 2024
terça-feira, 16 de abril de 2024
Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Há 18 anos, Fernando Carreiro vive no meio do poder e dos poderosos. Jornalista, é consultor de comunicação especializado em crises de imagem, estratégia política e comportamento humano.

Entre ouvidos e sussurros

Entre ouvidos e sussurros

Os escaninhos do Congresso Nacional sussurraram e os corredores do Palácio do Planalto escutaram: o presidente da Câmara, Arthur Lira, segreda a eventual abertura de um processo de impeachment contra o presidente Lula, caso não receba o endosso do comandante regente à sua reeleição, ou que, pelo menos, soletre corretamente o conhecido pensamento “muito ajuda quem não atrapalha”, que mais parece canção.

Lula, escolado na tempestuosa e trágica relação Dilma Rousseff-Eduardo Cunha, cuja história os mais atualizados livros de História não nos deixam esquecer, já provê um contra-ataque mesmo sem o barulho da bala ouvido ter: vai encher a mesa do plenário da Câmara com medidas provisórias a fim de retardar a elaboração de um novo capítulo nessa obra tragicômica que se chama “política brasileira”. As MPs, caso o leitor não saiba, trava toda a pauta do Congresso se não for votada em até 120 dias. Um punhado delas pode causar um estrago – ou evitar um maior.

Banalizaram a instituição do impeachment. O Brasil já viveu dois, com baixa para suas vítimas. O artifício é meramente político, e constitucional, mas se usado a torto e a direito, compromete a democracia como tal. Bolsonaro só escapou de um porque tinha maioria no Congresso Nacional; de Lula não se pode dizer o mesmo. Escaparia? Quem dirá? Quem diria?!

Enquanto essa banda passa, outra toca. A nova melodia dos parlamentares se chama “Artimanha”. Parece até marchinha de carnaval, com arranjos de marcha fúnebre: apavorados com as investigações da Polícia Federal, senadores e deputados querem limitar as ações da PF e submetê-las à autorização do Legislativo. Além disso, querem alterar as regras do jogo privilegiado, ops, foro privilegiado, se livrar do STF e responder à Justiça comum para procrastinar seus processos. Uma aposta esperta na Justiça morosa. Que saída honrosa…

A alegação faz inveja a qualquer concerto dramático de Mozart: há perseguição política e judicial aos políticos. Verdade ou mentira? Não vou entrar no mérito da discussão, mas posso invocar a Constituição: o processo é legal – embora os mandatários não considerem uma conduta tão legal (ou divertida) assim.

De uns tempos para cá o Brasil parece estar de pernas para o ar, com coração acelerado, peito aberto, pernas bambas, braços exaustos da porradaria, bundas cansadas dos chás de cadeira da censura judicial, cabelos em pé de agonia, olhares cegados pela social miopia. O que movimenta este país são sussurros e entreouvidos: quando um pensa em gritar, o outro, ora tímido e mouco, faz questão de as orelhas arreganhar.

Poderia ser uma poesia. Ou, quem sabe, um papo safado de bêbado para delegado. Mas são os diálogos desse nosso Brasil Político, que só sabe rimar quando convém; e só sabe escutar quando o sussurro vem.

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Há 18 anos, Fernando Carreiro vive no meio do poder e dos poderosos. Jornalista, é consultor de comunicação especializado em crises de imagem, estratégia política e comportamento humano.

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