Em Economia, certezas absolutas praticamente não existem, sobretudo no Brasil. Ainda assim, há sinais relevantes de desaceleração da inflação no horizonte. Após um período prolongado de juros elevados, o crédito ficou caro, o consumo e o investimento arrefeceram e, como efeito colateral desejado, os preços passaram a subir com menos intensidade. Em termos simples, o “preço do dinheiro” foi encarecido para proteger o valor da moeda.
Esse tipo de política funciona como um remédio forte: ajuda a controlar a inflação, mas, quando usado por tempo excessivo, pode frear demais a atividade econômica. Por isso, a discussão atual sobre a possibilidade de queda dos juros ganhou centralidade. Para os próximos meses, a tendência é de inflação mais comportada. No entanto, enquanto o país não enfrentar seus problemas estruturais, especialmente o tamanho e o custo do Estado, o risco inflacionário permanece latente. Choques de oferta, como eventos climáticos extremos ou gargalos logísticos, ou mesmo uma retomada mais vigorosa da demanda sem aumento correspondente da produção, podem reverter esse quadro.
Em resumo, a escolha é clara: ou o próximo governo encara os entraves estruturais da economia, ou o Banco Central continuará tendo de trabalhar duro para proteger a moeda da desvalorização.
Quando se fala em corte de juros, surge a pergunta inevitável: quais setores se beneficiam mais? A economia costuma ser dividida em três grandes setores. O primário, que engloba agropecuária e atividades extrativas; o secundário, representado pela indústria; e o terciário, que reúne comércio e serviços. Todos tendem a ganhar com juros menores, pois o crédito fica mais barato e a atividade econômica ganha tração. Mas, os maiores beneficiados costumam ser o setor primário e, sobretudo, a indústria.
A indústria é altamente dependente de financiamento para investir em máquinas, tecnologia e ampliação da capacidade produtiva. Com juros mais baixos, os custos financeiros caem, a rentabilidade dos projetos melhora e novos investimentos se tornam viáveis. Isso ajuda a explicar por que ciclos de redução de juros costumam estar associados a períodos de retomada industrial.
Há impactos negativos no corte de juros? Do ponto de vista da economia real, não. Pelo contrário: juros mais baixos estimulam o consumo, o investimento produtivo e aumentam a circulação de renda. Com crédito mais acessível, empresas e famílias recorrem mais ao sistema bancário, o que gera mais produção, mais vendas e mais empregos.
O efeito negativo aparece apenas para aplicações financeiras diretamente atreladas à Selic, que passam a render menos. Isso, porém, não configura um problema macroeconômico. Como ensinava John Maynard Keynes, quando a taxa de juros fica abaixo da eficiência marginal do capital – isto é, do retorno esperado do investimento produtivo – ocorre a chamada “eutanásia do rentista”. Perde espaço quem vive apenas de aplicações financeiras, e ganha força quem aposta na economia real.
O mercado de trabalho também tende a reagir positivamente à queda dos juros. Com condições financeiras mais favoráveis, novos projetos saem do papel, empresas ampliam operações e a geração de empregos aumenta. Além disso, quando a taxa básica cai, as demais taxas do sistema financeiro tendem a acompanhá-la, facilitando tanto o crédito para empresas quanto para famílias. O resultado é um círculo virtuoso: juros mais baixos levam a mais investimento, que gera mais produção e, por consequência, mais emprego.
No caso brasileiro, a política monetária não atua no vácuo. Ela convive com um quadro fiscal pressionado, elevada indexação de contratos e forte sensibilidade da economia a preços administrados. Isso significa que a queda dos juros, embora desejável, não substitui reformas que aumentem a produtividade, reduzam ineficiências e deem previsibilidade às contas públicas. Sem esse apoio estrutural, o alívio monetário tende a ser parcial e temporário.
Ainda assim, a direção importa. Uma trajetória consistente de juros mais baixos melhora expectativas, reduz a incerteza e cria condições para um crescimento menos dependente do consumo imediato e mais ancorado em investimento e inovação. Para o cidadão comum, isso se traduz em crédito menos oneroso, maior oferta de empregos e alguma recomposição do poder de compra.
Em última instância, discutir juros é discutir o modelo de desenvolvimento. A escolha entre premiar a renda financeira de curto prazo ou estimular a economia produtiva define quem ganha e quem perde ao longo do tempo. Uma política econômica equilibrada busca estabilidade de preços sem asfixiar a produção, garantindo que o crescimento seja sustentável e socialmente difuso.
Nesse contexto, o debate público ganha relevância: juros são um meio, não um fim, e seu sucesso depende de escolhas políticas que alinhem estabilidade, crescimento e responsabilidade fiscal.
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