21 de fevereiro de 2026
sábado, 21 de fevereiro de 2026

Famílias e investimentos: aprendizado financeiro no Brasil

O comportamento de investimento das famílias brasileiras vem passando por mudanças relevantes nas últimas décadas. O aumento da participação em instrumentos como previdência complementar, títulos públicos, fundos de investimento e, mais recentemente, ativos de maior risco — como fundos voltados a startups e criptoativos — têm despertado atenção e suscitado debates intensos. Muitas vezes, porém, essas transformações são interpretadas como modismos ou adesão a discursos prescritivos vazios. Uma leitura econômica mais consistente, entretanto, aponta em outra direção.

O comportamento financeiro das famílias no Brasil é resultado de um processo de aprendizado histórico profundo, marcado por experiências concretas de instabilidade monetária. A hiperinflação que caracterizou as décadas de 1970 e 1980 obrigou famílias de diferentes classes sociais a desenvolver estratégias de proteção do poder de compra, antecipação de consumo e alocação defensiva de recursos. Esse aprendizado empírico, longe de desaparecer com a estabilização monetária, passou a moldar a forma como diferentes gerações lidam com risco, poupança e investimento, como amplamente discutido na literatura de história econômica brasileira (Bresser-Pereira, 1987).

Esse comportamento é compatível com a hipótese teórica do ciclo de vida, segundo a qual indivíduos buscam suavizar consumo ao longo do tempo diante de incertezas sobre renda e preços futuros (Modigliani; Brumberg, 1954). Em economias com histórico inflacionário, essa racionalidade tende a ser reforçada por mecanismos comportamentais, nos quais memória econômica, aversão à perda e aprendizagem social exercem papel central (Shefrin, 2009).

Com a consolidação do Plano Real e a ampliação do sistema financeiro, esse repertório adaptativo encontrou novas possibilidades. Dados recentes da B3 mostram crescimento expressivo da base de investidores pessoa física em renda fixa, especialmente no Tesouro Direto, impulsionado pela digitalização bancária e pela redução das barreiras de acesso. Pesquisas nacionais (ANBIMA, 2024; CVM, 2025) indicam que a principal motivação declarada para investir continua sendo a formação de reservas de longo prazo, sobretudo para aposentadoria, evidenciando um comportamento predominantemente prudencial. Ao mesmo tempo, observa-se uma diversificação gradual das carteiras entre segmentos específicos da população.

Famílias de maior renda e faixas etárias mais jovens passaram a incorporar, de forma seletiva, ativos de maior risco e retorno esperado, como fundos de participação, investimentos em inovação e criptoativos. Esse movimento, contudo, está longe de ser generalizado. Ele reflete diferenças estruturais de renda, escolaridade, acesso à informação e capacidade de absorver volatilidade (Shefrin, 2009).

No Espírito Santo, esse padrão se manifesta de forma semelhante. O crescimento da renda média, a expansão do emprego formal e a maior oferta de produtos financeiros digitais têm ampliado o acesso das famílias a instrumentos mais sofisticados de investimento. Notícias econômicas recentes e dados setoriais apontam maior interesse por previdência privada, títulos públicos e fundos de investimento, ainda que com predomínio de perfis conservadores. A exposição a ativos inovadores existe, mas permanece concentrada em investidores qualificados e grupos específicos, o que reforça a importância de evitar generalizações apressadas sobre o comportamento financeiro das famílias capixabas.

Esse quadro reforça uma constatação central: as famílias brasileiras não são financeiramente desinformadas, mas historicamente cautelosas. Suas escolhas refletem experiências acumuladas, avaliação intertemporal de risco e leitura prática do ambiente econômico. Ignorar esse contexto leva a diagnósticos equivocados e a soluções simplistas que pouco contribuem para decisões financeiras mais eficientes.

Em um ambiente econômico cada vez mais complexo, marcado por novos produtos financeiros, maior volatilidade informacional e ciclos recorrentes de incerteza, a qualidade da informação torna-se um ativo decisivo. A tomada de decisão tende a ser mais consistente quando apoiada em análises econômicas sólidas, baseadas em dados, teoria e compreensão institucional. Nesse sentido, a busca por orientação qualificada, alinhada ao conhecimento produzido por economistas profissionais, contribui para que famílias transformem aprendizado histórico em escolhas financeiras mais conscientes e compatíveis com seus objetivos de longo prazo.

Famílias e investimentos: aprendizado financeiro no Brasil***

Adriana Rigoni

Economista
Conselheira do Corecon-ES
Professora da Universidade Vila Velha (UVV)

Coluna de Economia
Coluna de Economia
O que impacta a economia do Espírito Santo e dos capixabas tem um espaço exclusivo em ES Hoje. Por meio de artigos de especialistas a coluna - em parceria com Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES) - visa oferece aos leitores uma análise clara, contextualizada e acessível das dinâmicas econômicas nacionais e internacionais, mostrando como decisões, eventos e tendências globais impactam direta e indiretamente o Espírito Santo. O estado aponta grande crescimento na indústria, comércio, serviços, agro, logística e transporte, portos, petróleo e gás. Em parceria com o Conselho de Economia do Estado, as análises alertam e atualizam o mercado.

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