A dor sempre foi um dos sintomas mais subestimados na saúde da mulher. Durante muito tempo, cólicas intensas, desconfortos incapacitantes durante o período menstrual ou dores nas relações sexuais foram naturalizados como parte da experiência feminina. Mas é preciso dizer com clareza: sentir dor não é normal. Em muitos casos, ela pode ser um importante sinal de alerta para doenças como a endometriose.
A endometriose é uma condição ginecológica inflamatória caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. Esse tecido pode se instalar em órgãos como ovários, intestino e bexiga, provocando dor intensa e outros sintomas que impactam diretamente a qualidade de vida da mulher. Estima-se que milhões de mulheres convivam com a doença no Brasil, muitas vezes por anos sem diagnóstico.
Entre os principais sinais de alerta estão cólicas menstruais muito fortes, dor pélvica crônica, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais ou urinárias no período menstrual, além de dificuldade para engravidar. Nem sempre esses sintomas aparecem da mesma forma em todas as mulheres, o que pode tornar o diagnóstico ainda mais desafiador.
Um dos grandes problemas relacionados à endometriose é justamente o tempo que muitas pacientes levam para receber o diagnóstico correto. Em diversos casos, mulheres passam anos relatando dores que são minimizadas ou tratadas apenas com medicação para alívio dos sintomas, sem investigação mais aprofundada. Esse atraso pode permitir a progressão da doença e ampliar seus impactos físicos e emocionais.
Por isso, a escuta qualificada é um elemento essencial no cuidado em saúde. Na Atenção Primária à Saúde, o acolhimento adequado das queixas e a investigação cuidadosa da história clínica da paciente são fundamentais para identificar sinais que possam indicar a presença da endometriose. Quando há suspeita, o encaminhamento para avaliação especializada e exames complementares contribui para um diagnóstico mais rápido e preciso.
O cuidado coordenado também faz diferença nesse processo. Quando os profissionais de saúde atuam de forma integrada, acompanhando a paciente ao longo da jornada de cuidado, é possível reduzir o tempo até o diagnóstico e iniciar o tratamento de maneira mais precoce. Isso pode incluir abordagens clínicas, acompanhamento contínuo e, em alguns casos, intervenção cirúrgica, sempre considerando as necessidades e o momento de vida de cada mulher.
Falar sobre endometriose é, acima de tudo, ampliar a conscientização sobre a importância de ouvir o próprio corpo. Nenhuma mulher deve se acostumar a conviver com dores intensas ou incapacitantes. Reconhecer os sinais de alerta e buscar avaliação médica são passos essenciais para garantir qualidade de vida, bem-estar e cuidado adequado.
Neste Dia Nacional de Luta contra a Endometriose, a mensagem mais importante é clara: dor não deve ser normalizada. Dor precisa ser investigada.
***
Marcio Almeida
Ginecologista e obstetra
CEO da Bluzz Saúde









