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Engenharia pesada, informalidade e o colapso silencioso da infraestrutura humana

A engenharia pesada brasileira enfrenta hoje um gargalo que não se resolve com aditivos contratuais, reequilíbrios econômicos ou novos modelos de licitação. Trata-se de um problema estrutural: a escassez de mão de obra formal e minimamente qualificada, em um país que, paradoxalmente, mantém milhões de pessoas dependentes de programas assistenciais.

Não se questiona a importância dos programas de transferência de renda. Eles cumprem função essencial na proteção social. O problema surge quando o desenho dessas políticas passa a conflitar diretamente com a lógica produtiva da engenharia pesada, setor que depende de mão de obra estável, treinada, formalizada e submetida a rigorosas normas de segurança, compliance e responsabilidade técnica.

Empresas de infraestrutura, obras rodoviárias, portuárias, saneamento, energia e mineração relatam dificuldade crescente para contratar trabalhadores com carteira assinada. Em muitos casos, não há escassez de vagas, mas recusa explícita à formalização, motivada pelo receio da perda de benefícios sociais. O resultado é a migração para o mercado informal, com impactos diretos sobre produtividade, prazos, segurança operacional e custos indiretos das obras.

Esse fenômeno se intensifica justamente nas regiões com maior incidência de programas sociais e, coincidentemente, com piores indicadores educacionais. O Brasil ainda convive com cerca de 5,3% de analfabetos entre a população com 15 anos ou mais, além de um contingente expressivo de analfabetos funcionais. Para a engenharia pesada, isso se traduz em dificuldade de formar equipes capazes de interpretar projetos, seguir procedimentos operacionais, operar equipamentos cada fez com mais tecnologia , cumprir normas ambientais e atender às exigências de segurança do trabalho.

A consequência é objetiva: aumento de retrabalho, maior risco de acidentes, perda de eficiência e elevação do custo final das obras. Em um setor já pressionado por margens estreitas, elevada judicialização e fiscalização intensa, a fragilidade da infraestrutura humana torna-se fator crítico de inviabilidade.

A informalidade, que atinge aproximadamente um terço da população ocupada, é particularmente nociva na engenharia pesada. Grandes empreendimentos exigem rastreabilidade da mão de obra, treinamentos obrigatórios, qualificação certificada e vínculos formais. A informalidade não apenas reduz produtividade, como amplia o risco jurídico, trabalhista e previdenciário, expondo empresas e o próprio poder público a passivos relevantes.

O impacto fiscal também é significativo. A evasão da formalização reduz a arrecadação do INSS, FGTS e contribuições sociais, enfraquecendo a base de financiamento da seguridade. Ao mesmo tempo, amplia a dependência dos trabalhadores em relação aos programas assistenciais, gerando um duplo prejuízo ao Estado: arrecada menos e gasta mais.

Mesmo com taxa oficial de desemprego relativamente baixa, grandes obras seguem com dificuldade de mobilizar equipes completas. Parte expressiva da mão de obra potencial permanece subutilizada ou fora do mercado formal, não por falta de demanda, mas por distorções de incentivos criadas por políticas públicas desconectadas da realidade produtiva.

A engenharia pesada evidencia, com clareza, a ausência de uma política consistente de infraestrutura humana. O país investe em rodovias, ferrovias, portos, barragens e usinas, mas negligencia o ativo essencial que sustenta todos esses empreendimentos: pessoas alfabetizadas, capacitadas, formalizadas e produtivas.

Revisar os critérios dos programas sociais não significa reduzir proteção, mas alinhar assistência social à lógica do desenvolvimento. Um modelo mais eficiente deveria priorizar trabalhadores de baixa renda, vinculando benefícios a compromissos objetivos: filhos na escola, creches , alfabetização funcional, capacitação técnica, qualificação profissional e transição para o emprego formal.

Para a engenharia pesada, isso representaria ampliação da oferta de mão de obra qualificada, redução da informalidade, aumento da produtividade e mitigação de riscos operacionais. Para o Estado, significaria maior arrecadação, menor dependência assistencial e maior sustentabilidade fiscal.

A engenharia pesada é, por definição, planejamento de longo prazo. Políticas sociais também precisam ser. Assistência sem estratégia produtiva gera dependência; assistência integrada à formação de capital humano gera desenvolvimento.

Sem essa revisão, o país continuará construindo obras cada vez mais complexas sobre uma base humana frágil. E nenhuma engenharia resiste quando o alicerce é negligenciado.

Engenharia pesada, informalidade e o colapso silencioso da infraestrutura humana***

José Carlos Chamon
Empresário do ramo de infraestrutura
Conselheiro do Coinfra – Findes
Conselheiro da Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações de classe de Infraestrutura
Ex-Presidente do Sindicopes-ES

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