O Acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia representa um dos capítulos mais expressivos e longos da história recente da integração econômica internacional. Após mais de duas décadas de negociações iniciadas em 1999, esse tratado foi concluído em dezembro de 2024, sinalizando o fim de um processo que envolveu intensas rodadas de conversas, revisões técnicas e pressão política de diversos setores em ambos os lados do Atlântico. O acordo combina dois dos maiores blocos econômicos do mundo — o Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, e a União Europeia (UE), com seus 27 países-membros — e abrange uma população conjunta de cerca de 718 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) aproximado de US$ 22 trilhões.
Esse tratado é particularmente marcante porque visa a eliminação ou redução substancial de tarifas sobre a maior parte das mercadorias comercializadas entre os dois blocos. Estima-se que a UE eliminará tarifas sobre cerca de 92% das exportações do Mercosul, enquanto o Mercosul fará o mesmo para aproximadamente 91% dos produtos europeus, ao longo de prazos que variam de 10 a 15 anos conforme o setor. Em termos de comércio, a União Europeia já é historicamente um parceiro crucial para os países do Mercosul: o fluxo total de mercadorias entre os blocos superou 111 bilhões de euros, quase 17 % do comércio total do Mercosul em 2024, com o Brasil respondendo por mais de 80 % dessas transações.
A importância desse acordo para o Brasil e para o Mercosul é multifacetada. Em primeiro lugar, ele abre portas para um mercado europeu sofisticado e exigente, em que produtos brasileiros podem ganhar competitividade adicional em relação a concorrentes de outras regiões. A União Europeia é atualmente o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com uma corrente de comércio que ultrapassou os R$ 90 bilhões em 2023.
Com a liberalização do comércio, espera-se não apenas o aumento das exportações de commodities tradicionais — como soja, açúcar, café, carnes e etanol — mas também a oportunidade de diversificar a pauta exportadora brasileira e agregar maior valor aos produtos vendidos no exterior. Além disso, projeções de instituições como o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sugerem que o Brasil poderá experimentar crescimento de até 0,46 % no PIB até 2040 e um aumento de 1,49 % nos investimentos, superando os impactos previstos para a União Europeia e outros países do Mercosul nesse período.
Alguns setores brasileiros se destacam como potenciais beneficiários desse acordo. O agronegócio, que já consolidou o Brasil como um dos principais exportadores globais de soja, carnes e suco de laranja, tende a encontrar novas oportunidades em mercados europeus, com tarifas progressivamente menores e maiores quotas de acesso. Setores como alimentos processados, minerais, celulose e papel também se beneficiam dessa maior integração. Ao mesmo tempo, o setor de serviços, embora menos coberto pelo tratado, pode explorar potenciais sinergias em áreas como tecnologia, logística e finanças, abrindo espaço para investimentos e parcerias transcontinentais.
No entanto, os efeitos não são uniformemente positivos e existem obstáculos significativos que podem afetar o ritmo e a natureza dos benefícios. Do lado europeu, setores agrícolas em países como França, Irlanda, Polônia e Hungria protagonizaram grandes protestos — incluindo bloqueios de estradas com tratores — em reação ao que percebem como uma ameaça de importações mais baratas que poderiam prejudicar a produção local. A França, em particular, foi uma voz persistente de oposição e chegou a impedir, temporariamente, a assinatura do acordo no final de 2025, exigindo mais salvaguardas e compensações para seus produtores rurais.
Além disso, um dos principais desafios reside nas exigências ambientais e sociais atreladas ao acordo. A União Europeia tem defendido critérios rígidos de sustentabilidade, alinhados ao Acordo de Paris e aos compromissos climáticos, o que pode inserir barreiras não tarifárias significativas para exportadores que não atendam a padrões europeus de produção, rastreabilidade e sustentabilidade. A pressão por benefícios substanciais para países europeus em setores sensíveis também pode resultar em mecanismos de salvaguarda que suavizem os efeitos práticos do acordo para alguns segmentos exportadores do Mercosul.
Apesar de seu potencial estratégico, a implementação efetiva do acordo também dependerá da capacidade dos países do Mercosul, especialmente do Brasil, de enfrentar desafios internos estruturais. Entre eles, destacam-se a necessidade de investimentos em infraestrutura logística, a modernização do parque industrial, a ampliação da qualificação da mão de obra e o fortalecimento das políticas de inovação e sustentabilidade.
Sem esses avanços, parte das oportunidades abertas pelo tratado pode ser limitada ou aproveitada de forma desigual entre os setores produtivos. Soma-se a isso o desafio de adaptação às exigências regulatórias europeias, que impõem padrões elevados de rastreabilidade, governança e responsabilidade socioambiental, exigindo do Estado e do setor privado uma atuação coordenada para garantir competitividade e conformidade.
Assim, o acordo não elimina automaticamente as fragilidades estruturais do país, mas evidencia, de forma ainda mais clara, a urgência de políticas públicas consistentes para transformar abertura comercial em desenvolvimento econômico sustentável.
Portanto, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia representa um marco histórico que transcende a dimensão comercial e assume papel estratégico na redefinição da inserção internacional do Brasil. Após mais de duas décadas de negociações, sua conclusão simboliza maturidade diplomática, capacidade de convergência política e visão de longo prazo. Para o Brasil, o tratado abre caminhos para ampliar mercados, fortalecer setores produtivos, modernizar estruturas econômicas e consolidar uma agenda de desenvolvimento mais integrada ao cenário global.
Longe de ser um ponto final, o acordo deve ser compreendido como o início de uma nova etapa, na qual comércio, sustentabilidade, inovação e cooperação internacional se tornam pilares de uma estratégia econômica mais sólida, competitiva e promissora para o país.

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Ricardo Paixão
Presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES)
Economista, Mestre em Economia e Doutorando em Educação – Ufes
Professor efetivo da Faculdade Municipal de Linhares-ES – Faceli











