Neste
ano completo 31 anos de magistratura. Foi mais de um quarto de século ouvindo a
indefectível arenga de que “o Poder Judiciário é moroso porque faltam juízes,
servidores e estrutura”.
Não poucos foram os momentos em que, pressionados pela opinião pública, vi
colegas exibindo impotentes, pelos jornais, os milhares de processos à espera
de um despacho ou sentença, em um desabafo correto, mas que esconde o real
problema: nosso sistema legal “morreu e esqueceram de enterrar”, como reza
jocosa expressão popular.
Vamos lá: tramitam hoje pelo Poder Judiciário brasileiro 95,14 milhões de
processos, aguardando julgamento por 16.429 magistrados – ou 5.790 para cada um
deles. Cada processo desses consome tempo com audiências, leituras, atos
diversos e, evidentemente, a decisão. Imaginemos, inflados de otimismo, que
cada juiz decida um deles por dia. Aí concluiríamos, facilmente, que se
fechássemos as portas dos juizados hoje, levaríamos 5.790 dias só para colocar
o serviço em dia – algo como 15,8 anos, trabalhando 365 dias por ano, sem
férias ou repousos semanais.
Durante estes 15,8 anos as portas dos juizados estariam fechadas – e os
processos estariam sendo acumulados do lado de fora. Como a cada ano são
propostas 28,3 milhões de novas ações, ao fim deste período nossos juízes
abririam suas portas e encontrariam uma montanha com 447.140.000 processos
aguardando julgamento – 4,6 vezes maior do que a atual!
Agora pegue uma calculadora e faça alguns cálculos simples: multiplique por
dois o número de juízes. Resolverá? Não. Por três. Por quatro. Por cinco. E o
problema da morosidade não terá sido resolvido!
Imagine, finalmente, que apenas 1% do que acontece nas ruas chega ao mundo das
leis, e estará completo, à sua frente, límpido e claro, um quadro tão absurdo
quanto trágico.
Diante destes dados, resumir o problema a um singelo “aumento do quadro de
juízes e servidores”, ou a uma “melhor estrutura de trabalho”, chega às raias
do simplório.
O que deve e o que não deve ir aos juízes? Julgamentos colegiados e
procedimentos orais não deveriam ser adotados como regra? Como melhorar a
integração e a comunicação entre as instituições? Como priorizar o idealismo no
processo de seleção dos juízes?
Enquanto não respondemos tais questões com honestidade, somente nos restará a
contemplação, já secular, daquela monótona arenga de sempre – aquela do
“mais da mesma coisa”!
Arenga monótona
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