EDITORIAL
A alagoana Nise da Silveira (1905-1999) foi, inquestionavelmente, a mais importante psiquiatra brasileira de todos os tempos. Deixou muitas lições e mereceu a admiração e o afeto de Carl Jung, um dos maiores exponenciais da psicanálise no mundo. Também uma obra extensa e um legado que jamais poderá ser relegado a plano secundário: seu profundo amor pela liberdade.
Tinha, ainda, um afeto todo especial pelos bichos, e chegou a cunhar uma frase muito emblemática para a sociedade aristocrática e conservadora do século 20: “Desprezo as pessoas que se julgam superiores aos animais. Os animais têm a sabedoria da natureza. Eu gostaria de ser como o fato: quando não quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não tem papo”.
Tempos depois, o genial Millôr Fernandes cunhou, nesse mesmo sentido, outra frase na mesma direção: “Se os animais falassem, não seria com os humanos que eles conversariam”.
Esse é um desses momentos em que a humanidade toma plena consciência de sua impotência e, mais importante ainda, de sua finitude
Estamos no olho do furacão. Uma pandemia de origem desconhecida, sobre a qual pouco se descobriu até agora, provocou mudanças importantes nos padrões de vida e de relações sociais e familiares.
Estamos, portanto, diante de um desafio que para o qual a geração forjada nas redes sociais nunca se preparou: a necessidade de substituir as relações virtuais pelas reais. Nos tornamos estranhos a nós mesmos.
Confinamento e quarentena, na realidade, não são fatos tão novos nos dias atuais, em que as pessoas passam a maior parte do tempo na frente de computadores, tablets, notebook e smarthphones ou trancadas em algum cômodo da casa. Como um bunker. Pronto para repelir os inimigos.
O que antes ira inimaginável, vem se transformando numa rotina absurda: pessoas conversando por whatsapp dentro de um mesmo espaço físico, um apartamento padrão de classe média. As famílias estão emudecendo.
A essa nova configuração familiar, juntam-se alguns fatores que inevitavelmente geram angústias e ansiedades, porque envolvem o medo da perda de entes queridos ou da relação de trabalho.
Algumas mudanças impostas (e que provavelmente serão agravadas) acabaram interferindo em rotinas de vida altamente sedimentadas, como atividades físicas, conversa com amigos em bares e restaurantes, viagens, passeios com os filhos, enfim, tudo o que, com a quarentena, entrou na contramão da vida.
Este é, portanto, um momento de profundas transformações e que exigem, consequentemente, reflexões intensas.
Mas exigem, também, atitudes positivas, pensamentos otimistas, porque são geradores de qualidade de vida.
As sequelas serão inevitáveis, sobretudo episódios depressivos e transtornos do stress pós-traumático.
Então cuide de sua saúde mental. Fuja das notícias catastróficas e apocalíticas. Procure ver filmes leves, divertidos. Há bons livros. Há ótimos cursos on line. Enfim, diversifique o confinamento.
O mais importante agora é a consciência de que a quarentena é o melhor que você pode fazer em defesa da vida. De sua vida, da vida de sua família, de seus amigos e da sociedade como um todo.
Mas sem exageros, sem exacerbação. Apenas faça o dever de casa. É um sacrifício sem dúvida, mas você pode tornar tudo mais leva e agradável. Não estamos no meio de uma guerra político-ideológica.
E nos momentos de angústia, lembre-se do conselho de Nise da Silveira, mais atual do que nunca:
“Não se curem além da conta. Gente curada demais é chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas. É necessário se espantar, se indignar e se contagiar. Só assim é possível mudar a realidade.
Use a imaginação, a criatividade e a fantasia.
Torne a vida mais leve!









