Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.
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Cultura capixaba: o tempo da escuta

Passada a eleição, o Espírito Santo entra num momento de expectativa e de abertura. Lorenzo Pazolini foi eleito governador no segundo turno, com 52,17% dos votos válidos, e assumirá o cargo em 1º de janeiro de 2027, para um mandato de quatro anos. Para quem vive, pesquisa e produz cultura no estado, este é um tempo de olhar para frente e perguntar, com esperança, que lugar a cultura poderá ocupar nesse novo ciclo.

O começo

Todo início de governo carrega possibilidades. A transição é o momento em que intenções ganham forma: nomes, prioridades, projetos. Por isso, mais do que antecipar julgamentos, vale acompanhar com atenção e boa disposição o que está sendo construído.

O programa de governo apresentado durante a campanha prevê a integração entre Segurança, Saúde, Educação, Esporte, Lazer, Cultura e Assistência como eixo para elevar a qualidade de vida em todo o estado. Colocar a cultura nesse conjunto é reconhecer que ela faz parte do bem-estar das pessoas, ao lado de direitos fundamentais. Já como governador eleito, ele defendeu a valorização da TVE e da Rádio Espírito Santo, ressaltando a transmissão de eventos locais e da cultura regional. É um gesto que aponta para algo essencial: dar visibilidade ao que é produzido aqui e fazer com que os capixabas se reconheçam no que veem e ouvem.

Uma riqueza pronta para florescer

O Espírito Santo tem um patrimônio cultural de enorme força. O Congo, as bandas e as festas de santo atravessam gerações nas comunidades. A cultura ballroom, o hip-hop e o slam ocupam as periferias com potência estética e política. Há uma produção contemporânea em artes visuais, música, teatro, dança e audiovisual que dialoga com o país e com o mundo. Há museus, centros culturais, bibliotecas e patrimônios históricos que contam a história do estado.

Esse é o ponto de partida do novo governo: não um vazio a ser preenchido, mas uma cena viva, criativa e diversa, que pode ganhar ainda mais fôlego com apoio, planejamento e reconhecimento.

Cultura capixaba: o tempo da escuta

Caminhos possíveis

Há muitas oportunidades à vista. A cultura é trabalho, renda, formação, memória e identidade. Movimenta economias locais, gera empregos e fortalece o turismo de base comunitária. Um governo que enxergue isso pode transformar a cultura em um dos motores do desenvolvimento capixaba.

Outro caminho promissor é o território. Os municípios do interior, do norte ao sul, do litoral às montanhas, guardam saberes e expressões que podem circular mais e ser celebrados em todo o estado. Levar oportunidades a cada região é fortalecer a identidade capixaba em toda a sua diversidade.

A articulação com a educação também abre horizontes. A formação de público, o ensino de artes e o contato de crianças e jovens com o patrimônio e com os mestres populares são investimentos que rendem frutos por gerações. Nesse movimento, a universidade e os institutos federais podem ser grandes parceiros, com pesquisa, formação de profissionais e conhecimento acumulado sobre a cultura do estado.

Cultura capixaba: o tempo da escutaEscutar para construir juntos

É aí que está o coração desta conversa. Em seu discurso de vitória, o governador eleito falou em unir o Espírito Santo e dialogar com todos. Essa disposição é uma excelente notícia para o setor cultural.

O diálogo pode ganhar corpo no fortalecimento do Conselho Estadual de Cultura, em conferências e fóruns que alimentem as decisões, em canais permanentes de participação e na escuta dos fazedores de cultura do interior e da capital. Mestres populares, artistas, pesquisadores, produtores e gestores têm muito a contribuir, e um governo que os ouça terá em mãos o melhor diagnóstico possível para agir.

A parte que nos cabe

A escuta, porém, é uma via de mão dupla. Cabe ao próprio setor cultural se organizar, construir pautas comuns, apresentar propostas concretas e ocupar com entusiasmo os espaços de participação. Esperar o que o novo governo trará não é ficar parado: é preparar-se para contribuir, com ideias claras e disposição para construir.

O Espírito Santo tem diante de si uma oportunidade valiosa: um governo que chega falando em diálogo e um setor cultural cheio de vontade de participar. Se esse encontro acontecer, e há boas razões para acreditar que pode acontecer, os próximos quatro anos têm tudo para ser um tempo de florescimento para a cultura capixaba.

Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.

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