Há uma pergunta que atravessa a cena cultural capixaba e que raramente é feita em voz alta: para quem, afinal, os espaços de arte abrem as portas? A resposta costuma estar escrita no mapa. Instituições e equipamentos culturais se concentram nas áreas centrais, e quem vive longe deles aprende cedo que arte é coisa de outro bairro, de outro público, de outra vida. É contra essa lógica que a Casa Marginal reabre em Inhanguetá no próximo dia 12 de outubro, e vale a pena prestar atenção no gesto.
À frente do espaço estão Nannan e Maria Tereza, idealizadores que entendem que abrir um lugar dedicado às artes visuais fora do centro não é apenas mudar o endereço da arte. Nannan assina a direção criativa que dá unidade ao projeto e à ocupação da casa, enquanto Maria Tereza responde pela curadoria de “Gente”, a coletiva que abre a agenda expositiva. Ao lado de Bruno Lhaes, autor da nova identidade visual, os dois conduzem a sede da produtora Marginal, que há dois anos atua na elaboração, montagem e produção de projetos culturais. A reinauguração, portanto, não é o começo de uma trajetória, mas a consolidação de um trabalho que já vinha sendo feito nos bastidores e que agora ganha endereço, fachada e programação próprios.
Não é por acaso que o grupo se chama Marginal. A palavra carrega uma ambiguidade que vale explorar. Por um lado, nomeia aquilo que está à margem, fora do eixo, distante dos centros de decisão e de visibilidade. Por outro, foi historicamente usada para desqualificar territórios e pessoas, como se estar longe do centro fosse também estar fora da norma, da cultura, da legitimidade. Ao assumir o termo como nome próprio, a produtora inverte o sinal. A margem deixa de ser lugar de falta e passa a ser ponto de partida. Nesse sentido, a Casa Marginal não pede licença ao circuito tradicional para existir; ela propõe outro circuito.
Essa escolha tem consequências práticas. Um espaço que se reconhece na margem não pode reproduzir os códigos de distanciamento que tornam tantos ambientes expositivos intimidantes: o silêncio solene, o cubo branco hermético, a sensação de que é preciso saber alguma coisa antes de entrar. A proposta da casa caminha em outra direção, e isso aparece na própria forma como ela foi pensada.
O que mais me chama atenção não é a novidade, mas a permanência. Muitas iniciativas de descentralização chegam aos territórios periféricos como eventos pontuais: montam, desmontam e vão embora, deixando atrás de si uma boa fotografia e pouca coisa além. A Casa Marginal aposta no contrário. É um espaço de múltiplos usos, que reúne área expositiva, loja de produtos e objetos artísticos, brechó, ações educativas e agenda aberta para receber projetos de diversas linguagens.
Essa mistura pode parecer, à primeira vista, uma dispersão de foco. Penso que é justamente o oposto. Cada uma dessas frentes funciona como uma porta diferente para o mesmo lugar. Quem talvez nunca entrasse para ver uma exposição pode chegar pelo brechó, pela loja ou por uma oficina, e descobrir, no caminho, que há obras na parede esperando por um olhar. Maria Tereza descreve exatamente isso quando fala em “outras portas de entrada”. A formação de público, nesse modelo, não depende de convencer alguém a gostar de arte; depende de criar ocasiões para que o encontro aconteça.
Há também um dado de memória que não pode ser ignorado. O imóvel já abrigou o projeto “Corpo território”, o que significa que existe ali um vínculo construído com a vizinhança. A curadora faz questão de dizer que a ideia é dar continuidade a esse vínculo, não recomeçar do zero. Essa postura é rara e preciosa. Em muitos casos, cada nova gestão ou novo projeto cultural apaga o anterior, como se a história de um lugar começasse no dia da sua própria inauguração. Reconhecer o que veio antes é reconhecer também que o território tem trajetória, e que quem chega deve somar, não substituir.

Maria Tereza toca no ponto central quando afirma que descentralizar não é só uma questão de endereço, mas de quem se sente convidado a entrar. A frase deveria ser lida com atenção por gestores públicos e instituições culturais. A distância que separa boa parte da população dos espaços de arte é física, sim, mas é sobretudo simbólica. Não basta abrir a porta; é preciso que as pessoas acreditem que aquela porta também é delas.
Por isso a escolha de começar com uma exposição chamada “Gente” é mais do que um título feliz. É uma declaração de princípios. A mostra reúne trabalhos que tratam da presença humana, do corpo, das relações e das formas de estar junto, em diferentes linguagens. Não se propõe a falar de um grupo específico, mas daquilo que aproxima as pessoas e das diferenças que as constituem. A imagem que a curadora usa para descrever o conjunto é a de uma casa cheia de gente, onde cada um mantém sua singularidade e, ainda assim, convive com os demais. Há encontros e há atritos, e ambos fazem parte do percurso.
Essa opção curatorial tem algo de generoso. Em vez de inaugurar o espaço com um tema que exigisse repertório prévio do visitante, a exposição parte daquilo que qualquer pessoa conhece por experiência própria: o corpo, a convivência, o estar entre outros. O convite implícito é para que o público se reconheça nas obras e perceba que a arte também fala da sua vida. Não se trata de simplificar a arte, mas de lembrar que ela nunca esteve separada da vida comum, ainda que certos circuitos insistam em fazer parecer que sim.
Outro aspecto significativo é a forma como a curadoria se reconhece transformada pelo lugar. Estar em Inhanguetá, segundo Maria Tereza, muda a maneira de pensar uma exposição. Não dá para montar uma mostra e esperar que o público venha; é preciso construir a relação no cotidiano, com conversa, mediação e presença. Essa é uma lição que muitas instituições centrais ainda não aprenderam. O público não é uma plateia que se aguarda, é uma relação que se cultiva.
O trabalho de Nannan na direção criativa se inscreve na mesma lógica. Dar unidade a um lugar que é ao mesmo tempo espaço expositivo, loja, brechó e ambiente de formação exige pensar a experiência como um todo, e não apenas a obra na parede. A nova identidade visual de Bruno Lhaes, apresentada na abertura, reforça esse movimento: uma casa que se mostra de outro jeito, sem abrir mão do compromisso que a originou.
Nada disso garante sucesso. Espaços independentes vivem de fôlego, e fôlego custa caro. Manter uma programação contínua, pagar artistas, sustentar ações educativas e conservar um imóvel aberto ao público são desafios que nenhuma boa intenção resolve sozinha. A Casa Marginal vai precisar de público, de parceiros e, idealmente, de políticas culturais que enxerguem iniciativas como esta não como exceção simpática, mas como parte estrutural do ecossistema das artes no Espírito Santo.
É aí que a responsabilidade deixa de ser apenas dos idealizadores. Editais que considerem a distribuição territorial dos recursos, programas de circulação que levem artistas e obras para fora do eixo central e uma imprensa cultural disposta a cobrir o que acontece longe dos endereços de sempre são condições para que projetos como este não dependam exclusivamente da persistência de quem os criou.
Ainda assim, a aposta de Nannan e Maria Tereza já cumpre uma função importante: lembrar que existe produção artística potente fora do centro e que a cultura circula melhor quando encontra abrigo onde as pessoas moram. No dia 12, Inhanguetá ganha um novo endereço para a arte. Mas, se a proposta se sustentar, ganha algo maior: um lugar onde a arte deixa de ser visita e passa a ser vizinha.









