A Academia Espírito-Santense de Letras comemora, neste ano de 2026, 105 anos. Na sessão solene realizada para festejar o aniversário, em 14 de setembro, na Assembleia Legislativa, a vice-presidente Adriana Campos fez uma fala muito interessante. Ela apresentou uma primeira leitura geracional dos membros da Academia, desde a primeira leva escolhida nos anos 1920 até os atuais acadêmicos.
A partir da fala da nossa vice-presidente, construí um roteiro para o debate com os presentes na solenidade, chamando a atenção para a articulação entre as elites intelectuais que compõem a nossa Academia e o mundo mais amplo da política e do poder.
Fazendo um retrospecto histórico, tivemos, na primeira leva de intelectuais que chegaram à Academia, uma legítima expressão das elites da Primeira República, exercendo as chamadas profissões imperiais: eram médicos, advogados ou engenheiros. Além desses quadros vindos das faculdades, havia jornalistas e escritores, filhos, normalmente, das classes mais abastadas. O primeiro presidente foi o então bispo do Espirito Santo, Dom Benedito Paulo Alves de Souza. Ele mesmo, um perfeito representante desse quadro social.
A Primeira República terminou em 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. No Espírito Santo, o interventor nomeado foi o Capitão João Punaro Bley, que acabou ficando no poder até 1943, o mais longevo de nossos governadores. Os tempos de Bley foram tempos de desconstrução das bases sociais das elites dirigentes. Dizendo melhor, de posicionamento diferente das antigas classes dirigentes. Os coronéis continuaram poderosos, mas deixaram de ser o epicentro do poder; a nova dinâmica colocava uma elite estatal, portadora de um reformismo autoritário, no centro.
A antiga e todo poderosa aristocracia cafeeira que, em termos de poder, em nosso estado, vinha sendo representada pelo grupo político de Muniz Freire no início da República e, depois, pela família Monteiro, de Jerônimo, Bernardino e Dom Fernando, teve que se acomodar em novo patamar. Carlos Lindenberg foi o maior exemplo: sucessor natural do poder político da família Monteiro, virou personagem secundário na fase de João Punaro Bley.
A Academia Espírito-santense de Letras ficou sem atividades até 1937. Voltou renovada, aumentou o número de seus participantes, enquadrando-se, como quase tudo na Era Vargas, a novas diretrizes nacionais. Além da renovação dos quadros, houve o enquadramento a diretrizes nacionais vindas de uma Federação das Academias de Letras do Brasil. Merece destaque, nessa fase, o papel da longa presidência do desembargador Eurípedes Queiroz do Vale, entre 1941 e 1963.
O Espírito Santo buscava sua modernização através da criação de indústrias nesse período. Jones dos Santos foi interventor, senador e governador, Eram os frutos do processo de mudanças econômicas que se organizavam em um patamar intelectual diferente também. Na longa gestão de Queiroz do Vale, que se confunde com o segundo momento da Academia, os novos quadros que ingressaram já não tinham os mesmos perfis dos fundadores, já não eram apenas os representantes das famílias tradicionais do período do protagonismo indiscutível do café.
Creio que o tecido social da AEL continuou o mesmo até os anos 1970. Foram os novos atores, como Renato Pacheco, Christiano Dias Lopes e Nelson Abel de Almeida, que foi presidente longevo entre as metades dos anos 1970 e 1980 que mudaram o perfil da AEL. Portanto, a nova elite intelectual saída da Era Vargas, os jovens nacionalistas que reinventaram o Espírito Santo entre os anos 1950 e 1980, e ocuparam os postos importantes na condução da Academia.
Finalmente temos a virada do século XXI, conduzida por uma outra geração, a dos professores doutores da Ufes. Eu mesmo participo da primeira geração que prestou concurso público em 1982 e foi estudar o Espírito Santo em mestrados e doutorados. É a geração de intelectuais dos anos 1980, a que teve um novo olhar explicativo sobre o território capixaba.
Francisco Aurelio Ribeiro é a maior expressão dessa renovação. É a geração dos professores doutores da Ufes, sobretudo do Departamento de Literatura. Gabriel Bittencourt e Ester Abreu, com a mesma titulação, também têm papel destacado nesse processo de construção de um novo momento. É dele que surgem, inclusive, as presidências femininas.
Tivemos três momentos diferentes: aquele do Bispo Dom Benedito e das elites tradicionais capixabas; o momento da transição para a modernidade, que é muito marcado pela gestão Queiroz do Vale; e o momento atual, em que a grande marca é o ingresso das elites intelectuais da Universidade Federal do Espírito Santo. Cabe a questão: que elites queremos construir daqui para a frente, no mundo digital?









