Mais fibras, sono mais profundo? O que a alimentação tem a ver com a qualidade do descanso

Dormir bem não depende apenas do número de horas passadas na cama. A qualidade e a estrutura do sono também estão relacionadas à saúde metabólica, e a alimentação pode ter participação nesse processo. É o que indicou um estudo recente da revista Nature Health.

A pesquisa analisou milhares de noites de sono associadas aos registros alimentares dos participantes. Encontrou uma relação entre uma maior densidade de fibras na alimentação e uma composição mais restauradora do sono.

Nos dias em que o consumo de fibras foi maior, os participantes apresentaram, em média, aumento de 0,59 ponto percentual no sono profundo e de 0,76 ponto percentual no sono REM, além de redução do tempo em sono leve.

Mais fibras, sono mais profundo? O que a alimentação tem a ver com a qualidade do descanso
Foto: www.arqdosono.com.br

Para a endocrinologista e metabologista Gisele Lorenzoni, o achado chama atenção porque reforça uma conexão que vai além da digestão quando se fala em fibras.

“O sono e a alimentação fazem parte de um mesmo sistema. Uma alimentação de melhor qualidade pode contribuir para o funcionamento metabólico e, consequentemente, para condições mais favoráveis ao descanso. Mas é importante interpretar esses resultados com cautela: o estudo mostra uma associação e não significa que simplesmente comer mais fibras vá resolver problemas de sono”, explica.

As fibras são encontradas principalmente em alimentos de origem vegetal, como frutas, verduras, legumes, feijões, aveia, sementes e cereais integrais. Além da participação no funcionamento intestinal, estão relacionadas à saciedade, ao controle da glicemia e à saúde cardiovascular e metabólica.

Segundo Gisele, aumentar a presença desses alimentos na rotina pode ser uma estratégia interessante dentro de uma alimentação equilibrada, especialmente quando eles substituem opções mais pobres nutricionalmente.

“Quando pensamos em fibras, não devemos olhar apenas para um alimento isolado. O ideal é construir uma alimentação com variedade de vegetais, frutas, leguminosas e cereais integrais. Essa diversidade fornece fibras diferentes e também uma série de outros nutrientes e compostos bioativos”, afirma.

A relação com o sono também não parece estar restrita à quantidade de fibras. No estudo, uma maior variedade de alimentos de origem vegetal e maior consumo de alimentos vegetais integrais também apareceram associados a indicadores de recuperação noturna, como menor frequência cardíaca durante o sono.

Um ponto importante é que os resultados não indicam que seja necessário consumir uma grande quantidade de fibras à noite para dormir melhor. A pesquisa avaliou o padrão alimentar do dia e seus efeitos sobre o sono daquela noite.

“Não existe a recomendação de fazer uma refeição rica em fibras imediatamente antes de dormir. Para algumas pessoas, inclusive, um aumento muito rápido do consumo de fibras pode provocar gases, distensão abdominal e desconforto. O mais interessante é distribuir boas fontes de fibras ao longo do dia, aumentando a quantidade gradualmente e mantendo uma hidratação adequada”, orienta a médica.

A especialista também ressalta que qualidade do sono é resultado de múltiplos fatores. Rotina irregular, estresse, consumo de álcool, cafeína, sedentarismo, excesso de peso e diferentes condições clínicas podem interferir no descanso.

Mas a relação entre alimentação e sono não é um tema novo, e vem sendo estudada há anos. Pesquisas anteriores já haviam observado associação entre maior consumo de fibras e maior quantidade de sono de ondas lentas, enquanto dietas com maior presença de gordura saturada e açúcar estavam relacionadas a um sono menos profundo e mais fragmentado.

Para Gisele, a principal mensagem não é transformar a fibra em um “alimento para dormir”, mas compreender que pequenas escolhas alimentares podem fazer parte de uma estratégia mais ampla de saúde.

“Uma boa noite de sono não começa necessariamente quando apagamos a luz. Os hábitos construídos durante o dia, incluindo alimentação, atividade física e exposição à luz, também participam desse processo. Ter uma alimentação rica em fibras é uma recomendação importante por diversos motivos metabólicos e pode estar associada a um sono de melhor qualidade, mas não substitui a investigação quando existe uma queixa persistente de insônia ou sono não reparador”, conclui a endocrinologista.

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