A economia deve ocupar espaço importante na disputa pelo governo do Espírito Santo no segundo turno, especialmente em temas que afetam diretamente o cotidiano do eleitor, como preços, emprego, transporte e custo de vida. É o que avalia o economista Ricardo Paixão, presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES).
A nova etapa da eleição será disputada por Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB). No primeiro turno, realizado neste domingo (4), Pazolini terminou na liderança, com 1.048.633 votos, equivalentes a 49,65% dos votos válidos. Ferraço recebeu 719.397 votos, ou 34,06%. Como nenhum dos dois alcançou mais da metade dos votos válidos, a definição ficou para 25 de outubro.
Para Paixão, apesar da influência das questões políticas e ideológicas na escolha do eleitor, a percepção sobre a economia real pode ser decisiva na segunda rodada. “A população é fortemente impactada pelo dia a dia dela, o preço dos produtos no supermercado, na feira livre, a passagem de ônibus. Enfim, as condições do dia a dia da população são muito percebidas”.
Na avaliação do economista, o mercado de trabalho também estará entre os fatores observados pelos eleitores. A facilidade ou dificuldade para conseguir uma nova colocação, além da percepção sobre renda e poder de compra, pode influenciar a avaliação dos candidatos.
“As condições de emprego, se eu consigo com facilidade arrumar um novo emprego ou não, a população está de olho nessas questões. Por isso, o econômico é muito importante. Ele vai ser um dos pontos que vão pesar na hora da decisão de voto.”
Paixão afirma que o resultado do primeiro turno também apresentou uma sinalização política que não pode ser ignorada pelos candidatos. Para ele, houve uma aproximação do eleitorado capixaba com pautas associadas à direita. “Embora você tenha uma sinalização da população pelos resultados no geral, a população se dirige um pouquinho mais para a direita e tudo com as pautas de direita. Isso ficou explícito nos resultados”.
O economista, porém, pondera que a orientação política do eleitor não elimina a importância dos problemas concretos enfrentados no cotidiano. Na avaliação dele, o cenário econômico nacional apresenta indicadores positivos em algumas áreas, mas ainda convive com desafios relevantes.
Paixão cita a redução do desemprego e uma economia que busca ganhar fôlego, além de uma inflação sob controle, mas chama atenção para o nível dos juros.
“Nós temos bons números macroeconômicos. O desemprego está no seu menor patamar, nós temos a economia buscando um fôlego um pouco maior, a inflação está controlada. Mas nós temos alguns outros desafios, taxa de juros extremamente elevada.”
Nesse ponto, o presidente do Corecon-ES avalia que os candidatos ao governo precisam apresentar de forma clara como pretendem lidar com um ambiente de juros elevados e quais caminhos defendem para manter o equilíbrio das contas públicas sem comprometer a atividade econômica. “Acho que os candidatos têm que sinalizar como eles iriam resolver a questão dos juros”.
Dívida pública entra no debate
A discussão sobre juros também leva a outro tema apontado por Paixão: a situação fiscal. Embora a política econômica seja uma área técnica, o economista afirma que as decisões são influenciadas pelo ambiente político.

Segundo ele, a dívida pública brasileira está na faixa de 80% a 82% do Produto Interno Bruto (PIB), indicador utilizado para medir o tamanho da economia. Uma parcela importante dessa dívida é formada por títulos públicos emitidos pelo governo, que funcionam, na prática, como uma forma de captação de recursos junto à sociedade.
Quando os juros estão elevados, o custo de remuneração desses títulos também aumenta, pressionando as despesas financeiras do governo.
“Quando a taxa de juros está alta, o custo da dívida fica mais elevado. Então esse é um ponto de destaque para nós.”
Paixão, no entanto, faz uma ressalva: para ele, o tamanho da dívida não deve ser analisado isoladamente nem tratado automaticamente como sinal de uma crise.
“A alta precisa ser monitorada? Sim. Só que não é o fim do mundo, como a gente vê em algumas reportagens.”
O economista destaca que países desenvolvidos convivem com níveis de endividamento superiores ao brasileiro e cita os Estados Unidos como exemplo. O ponto central, segundo ele, é a forma como a dívida é administrada, incluindo o custo dos títulos e o prazo de vencimento.
“A dívida tem que ser bem administrada, ter um custo baixo, ter o seu vencimento no longo prazo. Não pode ter um vencimento todo no curto prazo ou a maior parte no curto prazo.”
A discussão fiscal, portanto, pode aparecer na campanha do segundo turno não apenas como uma questão de números, mas como uma escolha entre diferentes estratégias de gestão. Para Paixão, será importante observar como os candidatos pretendem conciliar responsabilidade fiscal, crescimento econômico e geração de empregos.
“A gente tem que entender como o candidato vai atuar nessa área, como ele vai conduzir e monitorar nossa dívida de uma forma eficiente, para que a gente não corra nenhum risco, mas também para que a gente não caia numa situação de recessão extrema, com aumento do desemprego.”
Nesse equilíbrio está, segundo o economista, um dos principais desafios da política econômica: fazer ajustes sem provocar efeitos excessivamente negativos sobre a população.
Paixão compara a condução da economia ao uso de um medicamento e defende equilíbrio na intensidade das medidas.
“A economia e a medicina têm muita relação. É a dose do remédio. Se o remédio for uma dose muito alta, você pode matar o paciente; se for uma dose muito baixa, não tem efeito. Então você tem que controlar a dosagem do remédio.”
Com a disputa entre Pazolini e Ferraço definida para o segundo turno, a campanha entra agora em uma fase em que, além das alianças políticas e da disputa ideológica, os eleitores terão de avaliar propostas para áreas que interferem diretamente no orçamento das famílias e na capacidade de investimento e funcionamento do Estado. A votação decisiva está marcada para 25 de outubro.










