Governo Trump quer enviar US$ 1 milhão para financiar grupos contrários ao STF, diz jornal britânico

O governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, planeja destinar US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5,2 milhões) em dinheiro público a grupos contrários ao STF (Supremo Tribunal Federal) sob a acusação de que a Corte extrapola as atribuições judiciais e impõe censura no Brasil, segundo reportagem do jornal britânico The Guardian.

O valor sairia do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado em um pacote de US$ 176,9 milhões (cerca de R$ 916,4 milhões) para fortalecer iniciativas voltadas à direita e ao conservadorismo em diversos países.

A lei que autoriza o fundo determina que a verba seja destinada até 30 de setembro, e o governo Trump pressionou para fazer os repasses a poucas horas do fim do prazo.

No documento ao qual o veículo teve acesso, o projeto é chamado de “combate ao uso abusivo do sistema de Justiça e à censura no Brasil”. Há 43 subsídios previstos do plano de Washington, incluindo US$ 2 milhões (R$ 10,4 milhões) a um programa supostamente destinado a proteger cristãos na Nigéria —Trump acusa a nação de perseguir o grupo e ordenou um ataque a Abuja em dezembro do ano passado.

Outros US$ 2 milhões seriam destinados ao combate ao que o governo americano classifica de “ideologia de gênero” na Polônia, na Eslováquia, na República Tcheca, na Hungria e nos Bálcãs. Há ações contrárias à imigração na Europa, projetos de combate a um suposto racismo contra brancos na África do Sul e iniciativas cujo objetivo é contestar a credibilidade de veículos de imprensa.

A Victims of Communism Memorial Foundation (“Fundação Memorial das Vítimas do Comunismo”, em tradução livre), organização americana anticomunista ligada a um ex-funcionário da Casa Branca, receberia US$ 40 milhões (R$ 207,2 milhões).

“As propostas do governo Trump usariam dinheiro dos contribuintes para promover organizações e programas de extrema-direita em democracias consolidadas. Isso é um desperdício de recursos e enfraquece os valores dos EUA e suas relações com parceiros democráticos, inclusive aliados na Europa”, disse ao Guardian a democrata Jeanne Shaheen, da Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA.

A senadora manteve dez bloqueios impostos sobre os subsídios voltados ao Brasil, à África do Sul, à Nigéria e à Europa, mas o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, assinou um memorando ordenando que as restrições fossem desconsideradas e os recursos, empenhados, segundo um assessor do Congresso americano.

Questionado pelo jornal britânico, o Departamento de Estado não respondeu se realmente ignorou os entraves. O órgão também não comentou os subsídios de forma individual, mas afirmou que os programas ainda estão em “deliberação ativa”, que os beneficiários atendem às diretrizes americanas para verbas federais e que as iniciativas passariam por um “processo rigoroso de verificação”.

A reportagem do Guardian aponta que os subsídios listados demonstram que o governo Trump busca redefinir o que é considerado como ação de direitos humanos e o que deve receber auxílio dos EUA. Segundo fonte ouvida pelo jornal britânico e envolvida nas discussões sobre as verbas, os projetos listados recebem atenção dos mais altos escalões do governo americano e têm aval da Casa Branca.

A reportagem é publicada em meio ao temor de que os Estados Unidos interfiram nas eleições, marcadas para domingo (4), a favor do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) —cujo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado e está preso por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

Autoridades da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) apontaram supostas intervenções dos EUA e da Rússia antes das eleições durante uma visita das delegações da França e da Alemanha a Brasília em setembro, segundo fontes e documentos consultados pela agência de notícias Reuters.

Conforme um relatório das reuniões elaborado por um dos participantes, membros da Abin teriam afirmado que a ingerência americana iria “da instrumentalização do sistema jurídico à interferência admitida abertamente”. Não há detalhes sobre a suposta interferência russa.

A questão foi abordada também no discurso do presidente Lula (PT), que concorre à reeleição, na Assembleia-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Sem citar Washington, o petista mencionou interferências praticadas pela “maior potência militar do mundo”.

“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, disse o mandatário. “Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para integração entre vizinhos. A democracia está em xeque.”

Em sua fala, Lula fez também uma referência indireta à relação da família Bolsonaro com Trump: “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade [de expressão dos candidatos durante o pleito] para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”.

Flávio se encontrou com Trump em maio, ocasião em que disse ter pedido ao presidente americano para que as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) fossem classificadas de organizações terroristas pelos EUA.

Na época, a campanha do candidato do PL lidava com o auge do desgaste provocado pela revelação de que Flávio pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro.

Em julho, ao lado do irmão e ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o senador participou de uma audiência promovida pelo Escritório de Comércio dos EUA, na qual defendeu que Trump adiasse a taxação de produtos brasileiros para depois das eleições.

Eduardo foi condenado em junho deste ano no STF a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação durante o processo em que era réu por ter atuado nos Estados Unidos para intimidar o Judiciário brasileiro e impedir a análise da trama golpista. Seu mandato foi cassado pela Câmara em dezembro de 2025.

Como a Folha de S.Paulo mostrou em setembro, uma série de contas estrangeiras ligadas ao ecossistema de Trump têm, publicado conteúdo pago para divulgar a disparada de Flávionas apostas da empresa americana Polymarket, bloqueada desde abril no Brasil.

A lei eleitoral veda o impulsionamento de propaganda para qualquer candidato por terceiros e proíbe doações (em dinheiro ou estimáveis) de entidades estrangeiras. Questionada, a campanha de Flávio respondeu que não tem conhecimento sobre os anúncios.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – MARINA COSTA

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