Virou tema recorrente na análise política o fato de sermos um Estado conservador. Já tratei desse tema antes, mas quero chamar a atenção hoje para um fato que me parece bem relevante: há uma história desse conservadorismo no campo da política.
Antes, uma constatação: nosso conservadorismo diz mais respeito às questões morais ligadas ao universo das famílias, como o divórcio, o aborto, a convivência com padrões de comportamento quanto à sexualidade, sobretudo quando coloca em dúvida os padrões machistas esperados para todos. Nas questões econômicas, na gestão do Estado e dos empreendimentos privados, os capixabas mostram-se mais ousados. Nossas personalidades públicas e empresariais têm dado ao mundo provas de que apostamos na inovação.
Evidentemente, que não tenho como esgotar tema tão denso em um simples artigo para um blog e para a imprensa cotidiana. Quero apenas chamar a atenção para um fato relevante. No início da República, quando vivíamos aqui sob a oligarquia da família Monteiro, cujo personagem mais conhecido até os dias de hoje foi Jerônimo, presidente do Estado entre 1908 e 1912, tivemos como Bispo do Espírito Santo o seu irmão Fernando. Homem muito culto e muito preparado para a missão que lhe foi destinada.
Estávamos no início do período republicano, e o Vaticano estava imbuído da tarefa de varrer do Brasil os vestígios de um sistema chamado de padroado, no qual o imperador era o chefe maior da igreja. O próprio Papa precisava da aprovação de seus atos pelo imperador para fazê-los valer. Os padres tinham funções civis no registro dos nascimentos, mortes e casamentos e eram funcionários do Estado. Com a República e os registros civis, tudo isso mudou.
Além disso, havia um catolicismo popular herdado de Portugal e com forte presença da religiosidade africana e mesmo indígena. Para o bispado de Dom Fernando, era importante estarmos mais próximos do que queria o Vaticano para as nossas práticas religiosas. Era preciso mudar tudo isso, ser menos tolerante com as heranças do Brasil colonial. A forte presença da imigração italiana entre nós facilitou essa tarefa. Na própria vinda dos italianos, a igreja católica tinha um papel através de uma Pastoral do Imigrante, com sede em São Paulo.
Aqui chegavam as famílias sem histórico de crimes ou alcoolismo, por exemplo, e todas praticantes do catolicismo. Foi nesse universo que o bispado do Espírito Santo alardeou práticas religiosas muito mais severas e, como resultado, tivemos historicamente um catolicismo diferente do baiano ou do fluminense, mais ligado aos traços conservadores e intolerante com as questões vindas do período anterior. Quem pratica as religiões de matriz africana, sobretudo os mais pobres, conhece o peso do que estou falando.
Foi a partir dessa base católica conservadora que o integralismo cresceu muito entre nós. Os apelos desse fascismo brasileiro ainda ecoavam muito fortes quando Plínio Salgado e seu grupo de camisas-verdes transformaram-se em um dos grupos políticos e ideológicos mais fortes no Espírito Santo. É em cima dessa rede de direita conservadora que também cresceu entre nós o direitismo atual, que marca de forma definitiva o presente capixaba.
Os historiadores Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto publicaram o excelente estudo chamado O Fascismo em Camisas Verdes: do integralismo ao neointegralismo, tratando de forma profunda toda a história desse movimento nascido nos anos 1930, quando a Europa vivia movimentos como o nazismo, o fascismo, o salazarismo e o franquismo, todos eles ancorados em valores tradicionais e como o mesmo lema: Tradição, Família e Propriedade.
Há um detalhe importante para mim nesse livro: a presença do movimento entre os capixabas. Dizem os autores: “No dia seguinte, no Teatro Carlos Gomes, região central de Vitória, camisas-verdes ocuparam o espaço quando, às 21h, Plínio Salgado, passou em revista e foi saudado com vibrantes Anauês”, que era a saudação de origem Tupi que se fazia de braço estendido, como entre nazistas e fascistas. Realizou-se, não por acaso, aqui o primeiro congresso nacional integralista, mostrando a importância de nossa força geográfica no movimento.
Plínio Salgado, candidato a presidente de República em 1955, teve sua maior votação proporcional em Colatina, cidade liderada à direita por Oswaldo Zanello, um dos grandes líderes do movimento e membro, mais do que destacado, da bancada de Plínio no Congresso Nacional durante décadas.
Hoje, muita coisa mudou, mas a base de crescimento da direita entre nós tem forte presença do cristianismo conservador, agora capitaneado por evangélicos, e a presença mais do que marcante da imigração europeia do século XIX, consolidada politicamente pela ação da Ação Integralista Brasileira.









