No Portugal do século XIV, Inês de Castro, dama de companhia da mulher do príncipe herdeiro — e por quem o príncipe perdeu o juízo —, foi degolada em 1355 por ordem do rei Afonso IV, pai do rapaz, que achava a moça politicamente inconveniente. Quando o príncipe subiu ao trono, mandou arrancar o coração de dois dos assassinos e — reza a lenda, que a história não confirma mas o povo adora — fez coroar o cadáver e obrigou a corte inteira a beijar a mão da rainha morta. De tudo isso, a língua portuguesa guardou o essencial em três palavras: Inês é morta. Quer dizer que agora é tarde, que o leite derramou, que a providência chegou quando já não havia a quem prover.
Este texto sai depois do domingo, 4 de outubro. Em alguns estados, e talvez na Presidência, ainda haverá segundo turno; Assembleias Legislativas, Câmara Federal e Senado, porém, não têm repescagem: estão eleitos os 513 deputados federais, mais de mil deputados estaduais país afora e 54 senadores — no Espírito Santo, dez, trinta e dois, respectivamente —, com mandato de quatro anos, ou de oito, para quem foi parar no Senado. A pobre Inês já não tem salvação. Resta-lhe, quando muito, uma missa de sétimo dia. E a mão estendida para o eleitor beijar.
Mais uma vez.
Porque a cada eleição — e lá se vão umas dez, contadas as municipais — o que mais se viu nas semanas anteriores foi candidato se esmerando, com tecnologia de ponta e estratégia de estado-maior, na arte de esconder: de não revelar, de não apresentar ao eleitor uma única proposta capaz de ser chamada assim. Houve tempo em que se reclamava do excesso — projetos demais, debates demais, promessas demais, muitas delas estapafúrdias, é verdade, mas havia ao menos o que discutir, o que rebater, o que cobrar depois. Hoje o que se enxerga é um deserto imenso, povoado apenas pela gritaria e por acusações do gênero “meu ladrão é melhor que o seu”, coisas que seria indigno até supor que façam parte da escala de valores do eleitor brasileiro no seu cotidiano.
O candidato de antigamente dizia: sou profissional, trabalhei trinta anos no setor tal, na empresa tal, e pretendo levar essa experiência para a casa de leis onde espero chegar com o voto popular, para fiscalizar isso, propor aquilo, melhorar aquela situação. O de agora diz: alô, aqui é o seu amigo Fulano, de tal lugar; sou a favor da família, da educação, da preservação das florestas — como se fosse possível, mesmo em delírio, imaginar um candidato que se declarasse inimigo da família, pregasse o analfabetismo ou oferecesse apoio entusiasmado ao desmatamento.
O buraco, note-se, é duplo. No primeiro afunda a régua dos valores coletivos, que o candidato reduziu à família, à escola e à floresta — contanto que ninguém pergunte como. No segundo, mais fundo, afunda a conta que ele faz da inteligência de quem vota: supõe um eleitor a cada dia mais disposto a engolir qualquer coisa.
Desde que venha embalada em gritos, acusações e exageros sob medida para as pesquisas.
A tal festa da democracia — clichê gasto, admito, mas que aludia a ruas e praças tomadas por cores, camisas, militantes e o barulho natural de campanha — virou algazarra de carro de som e dancinha de gosto, digamos com polidez, bastante duvidoso, a aporrinhar quem está preso no sinal vermelho sem ter para onde fugir do santinho nem do jingle.
Nos calçadões, desfila uma legião zumbi. São os barnabés nomeados em comissão a pedido do padrinho do candidato, que saem às ruas com entusiasmo de velório na véspera do réveillon, um olho no eleitor e outro no fiscal do partido, que está ali para conferir se o fulaninho nomeado a pedido do beltraninho merece continuar no cargo. Pergunte-se a qualquer um deles o que o seu candidato pretende, e virá a resposta-padrão: ele é contra o roubo, contra o ministro tal, contra a farra tal, contra o adversário — e, cereja do bolo, quando chegar lá vai fazer isso e aquilo. Lá onde? A maioria não saberia dizer nem o endereço.
Porque cada Casa tem pauta, competência e função próprias — detalhe que a engenharia eleitoral prefere esquecer. É candidato a deputado estadual prometendo rever imposto federal, candidato a senador prometendo fazer papel de delegado, candidato a deputado federal prometendo prender Fulano e acabar com Beltrano. Não fosse trágico, seria cômico. Sendo trágico, é também cômico — o que é pior.
Alguém embarcaria num avião pilotado por um sujeito só porque achou elegante a sua gravata? Entregaria o próprio corpo a um cirurgião, ou a própria liberdade a um advogado, porque um tem carro de luxo e o outro esbraveja bem em podcast? Ou saltaria de uma ponte com um paraquedas dobrado por alguém de quem só conhece o time — coincidentemente, o seu?
Pois foi exatamente isso que dezenas de milhões de brasileiros fizeram no domingo. Sem tirar nem pôr: exatamente isso.
E eis o que mais incomoda: o candidato que subestimou a inteligência do eleitor não errou a conta. Apostou na gravata — e a gravata se elegeu.
Diz a sabedoria de quintal que açúcar em ferida aberta faz as bactérias se multiplicarem até se devorarem umas às outras. A ciência explica de outro jeito, mas o consolo vale: quem sabe, turbinadas pelo açúcar dos discursos surreais, as bactérias políticas não se comam até a extinção daqui a quatro anos.
Enquanto isso não acontece, ficamos nós, eleitores, pelos próximos quatro anos (dois, se contarmos as municipais de 2028), a reclamar da falta de sintonia dos eleitos com a realidade, dos desvios que não surpreendem ninguém, dos discursos messiânicos, vazios, odientos. E é desse vazio que brota a ideia mais triste de todas: a de que, se eleição não serve para nada, melhor seria não ter eleição nenhuma e entregar o país a um grupo, a uma pessoa, a uma ideia — sempre aquela que povoa os sonhos do delirante de plantão — em vez de sustentar um sistema caro, que drena recursos de programas sociais para que um exército de mambembes apareça de tempos em tempos, apeie os adversários e passe a fazer rigorosamente a mesma coisa.
Compreende-se a tentação. Mas quem a alimenta esquece o detalhe principal da história de Inês: quem a matou não foi o excesso de escolha. Foi um rei que decidiu sozinho o que convinha ao reino — e não precisou do voto de ninguém.
Daqui a quatro anos, tem missa de novo. Convém chegar mais cedo.









