Quando pensamos na formação de um atleta, normalmente pensamos em treino. Horas de repetição. Preparação física. Técnica. Alimentação. Disciplina. Descanso.
Tudo isso é fundamental. Mas existe uma parte dessa preparação que talvez ainda receba menos atenção do que deveria: como está esse atleta cognitivamente e emocionalmente? Como ele reage à pressão? Consegue manter o foco quando mais precisa? Como lida com o erro e com a frustração? Consegue tomar decisões rapidamente?
E o que acontece quando repete um movimento inúmeras vezes durante os treinos, mas, no momento da competição, não consegue entregar aquilo que sabe fazer?
Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar Bruna Coutinho, atleta de ginástica rítmica, que chegou até mim justamente com algumas dessas questões. Bruna tem TDAH e já contava com profissionais acompanhando sua trajetória esportiva. Meu trabalho chegou para somar a esse processo.
Durante aproximadamente um mês e meio, realizamos um acompanhamento intensivo e individualizado voltado à performance cognitiva e emocional. Utilizamos ferramentas de neuromodulação não invasiva associadas a estratégias de autorregulação e a um olhar mais amplo para sua rotina, suas necessidades e a maneira como ela respondia às exigências do esporte.
Nesse período, Bruna também viveu um momento muito importante de sua trajetória competitiva. No Torneio Regional Sudeste de Ginástica Rítmica, conquistou medalhas e importantes resultados na categoria Adulto Nível I, incluindo o título geral da categoria e o ouro no aparelho fita, além de avançar para a etapa nacional. Em publicação recente sobre atletas capixabas, também aparece o registro de que ela alcançou a maior nota de sua categoria no Regional Sudeste, 19,30, conquistando o ouro.
Mas, antes de falar sobre medalhas, existe uma frase de Bruna que talvez explique melhor por que precisamos ampliar nosso olhar para a preparação de um atleta:
“Sempre me senti frustrada por repetir muitas vezes e, na hora, não conseguir entregar o que tanto repeti.”
Essa frase me marcou.
Porque o corpo pode ter repetido determinado movimento dezenas, centenas ou milhares de vezes. Mas, quando chega o momento da competição, aquele corpo não entra em quadra sozinho. O cérebro entra junto. As emoções entram junto.
A atenção, a tomada de decisão, o controle dos impulsos, a capacidade de responder à pressão e de se reorganizar depois de um erro também fazem parte daquele momento.
E isso não é apenas uma percepção da prática. A ciência do esporte vem se interessando cada vez mais pela relação entre funcionamento cognitivo e desempenho esportivo. Processos como atenção, memória de trabalho, controle inibitório e tomada de decisão são importantes para diferentes modalidades e contextos competitivos.
Quando falamos especificamente de atletas com TDAH, esse olhar individualizado ganha ainda mais importância. Uma revisão publicada no British Journal of Sports Medicine discute justamente o manejo do TDAH em atletas e destaca que suas características precisam ser consideradas de maneira individualizada, tanto em relação à saúde quanto ao desempenho.
Mas existe uma questão que considero fundamental: TDAH não determina até onde um atleta pode chegar.
O diagnóstico não pode ser transformado em identidade nem em sentença sobre o potencial daquela pessoa. Conhecer como aquele cérebro funciona pode, entretanto, contribuir para que profissionais e atleta construam estratégias mais adequadas às suas necessidades.
Em outro momento de seu relato, Bruna me disse: “Comecei a pensar várias vezes que eu não servia mais para isso.”
E talvez essa seja uma das frases que mais deveriam chamar nossa atenção. Porque por trás do atleta existe uma pessoa. Existe alguém que se compara. Que se frustra. Que cria expectativas. Que erra. Que sente medo de não conseguir. E que, muitas vezes, pode interpretar uma dificuldade de desempenho como uma incapacidade pessoal.
Bruna também trouxe uma percepção muito interessante sobre a relação entre o emocional e aquilo que conseguia executar. Em suas palavras: “O nosso emocional controla nosso corpo de forma impressionante. Quando estamos mal, a tendência é não executarmos as coisas bem. E é por isso que temos que saber como lidar com dias assim.”
Eu faria apenas uma pequena tradução profissional dessa percepção: não conseguimos, e nem precisamos, controlar todas as emoções. O que podemos desenvolver é a capacidade de reconhecê-las e construir recursos para nos autorregularmos diante delas.
Um atleta não precisa deixar de sentir ansiedade para ter uma boa performance. A própria Bruna percebeu isso durante o acompanhamento. Ao falar sobre aquele período, contou que começou a se sentir mais tranquila até nos chamados treinos-controle, que simulavam uma competição. Ela continuava sentindo ansiedade, mas passou a descrevê-la como uma “ansiedade boa”.
Essa diferença é muito importante. O objetivo não é formar um atleta que não sinta medo, ansiedade, frustração ou pressão. É ajudá-lo a desenvolver recursos para atravessar esses estados sem permitir que eles dominem completamente sua capacidade de agir naquele momento.
E é aqui que gostaria de trazer essa conversa também para os pais.
Muitas crianças e adolescentes sonham em ser atletas. E muitas famílias investem verdadeiramente nesses sonhos: procuram bons treinadores, compram equipamentos, viajam para competições, reorganizam a rotina da casa, cuidam da alimentação e acompanham horas e horas de treinamento.
Tudo isso tem importância. Mas será que estamos olhando com a mesma atenção para a preparação cognitiva e emocional desses jovens?
Talvez, além de perguntar: “Como foi o treino?”
possamos perguntar: “Como você se sentiu durante o treino?”, “O que acontece com você quando erra?”, “Como você reage quando perde?”, “Depois de uma falha, consegue se reorganizar para continuar?”, “Como está seu sono?”, “Como está sua rotina?” e “Você ainda sente prazer praticando esse esporte?”.
Porque alta performance não deveria ser sinônimo de mais cobrança.
Às vezes, o atleta não precisa simplesmente treinar mais. Precisa compreender melhor como funciona, desenvolver estratégias de autorregulação e contar com profissionais capazes de enxergá-lo de maneira individualizada.
No acompanhamento de Bruna, utilizamos também ferramentas de neuromodulação não invasiva. A ciência vem estudando esse campo no contexto esportivo, mas os resultados ainda precisam ser interpretados com cautela. Existem achados promissores em determinados aspectos do desempenho, mas isso não significa que uma ferramenta isoladamente produza um atleta de alta performance ou explique suas conquistas.
E faço questão de destacar isso justamente ao falar dos resultados de Bruna. As medalhas são dela.
São fruto de sua dedicação, das inúmeras horas de treino, de sua técnica, de sua equipe, de sua trajetória e de um conjunto de fatores que fazem parte da preparação de uma atleta. Meu trabalho entrou como uma parte desse processo, acrescentando um olhar para aspectos cognitivos e emocionais, rotina, autorregulação e estratégias individualizadas.
Para mim, tão importante quanto saber quantas medalhas ela trouxe foi ouvir como ela se percebeu naquele período.
Mais tranquila. Mais segura. Reconhecendo a ansiedade, mas aprendendo a lidar com ela. E isso nos ajuda a compreender que preparar um atleta talvez seja algo muito maior do que aperfeiçoar um movimento.
Existe um cérebro sustentando atenção e decisões. Existe um corpo que precisa de descanso. Existem emoções que precisam ser reconhecidas. Existe uma pessoa aprendendo a lidar com vitória, derrota, comparação, expectativa e frustração.
Por isso, principalmente quando falamos de crianças e adolescentes, precisamos enxergar o atleta inteiro.
O esporte pode ser um espaço extraordinário para desenvolver disciplina, persistência, responsabilidade, convivência e superação. Mas aquele jovem não pode ser visto apenas pelo resultado que entrega. Treinamos o corpo para executar. Precisamos também cuidar do cérebro e das emoções que estarão com esse corpo no momento de executar.
Talvez a verdadeira alta performance não seja apenas conseguir entregar mais. Talvez seja também aprender a se conhecer melhor, reconhecer seus limites, desenvolver suas potencialidades e construir recursos para enfrentar aquilo que o esporte, e a própria vida, vai exigir.
Porque, como sempre digo, mentes saudáveis criam um mundo melhor.









