Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

A lição dos 5%

A administração pública brasileira sempre conviveu com o peso sufocante de seus próprios gargalos. Não faltam diagnósticos nem diagnósticos de diagnósticos. O que sempre faltou foi a coragem — e o método — para redesenhar a engrenagem. Agora, em plena febre da inteligência artificial, surge a tentação de acreditar que basta instalar ferramentas de ponta para que o serviço público subitamente funcione com agilidade olímpica. Trata-se de uma ilusão dispendiosa. De mais da mesma coisa.

Dados compilados pela empresa Xertica revelam um retrato desconcertante: 95% das iniciativas corporativas de inteligência artificial generativa falham em gerar qualquer impacto mensurável no resultado final. O motivo não repousa na tecnologia em si — os algoritmos atuais são extraordinários —, mas na incapacidade crônica de integrá-la à rotina real de trabalho. As instituições compram telas cintilantes e “prompts” milagrosos, mas preservam intactos os velhos hábitos burocráticos.

No ecossistema estatal essa ineficiência custa caro demais. O levantamento sistematizado pela Xertica lembra que a lentidão processual consome R$ 146 bilhões anuais ao país — cerca de 1,3% do PIB nacional —, enquanto mais de 80 milhões de processos aguardam desfecho. No ritmo habitual, seriam quinze anos apenas para drenar esse acervo. O estrangulamento não decorre de desídia funcional, mas da impossibilidade física de cérebros humanos cruzarem “terabytes” de informações, anteciparem prescrições e garantirem coerência em escala massiva.

É aqui que a gestão pública precisa se reinventar. Não se trata de substituir pessoas por robôs, nem de maquiar processos obsoletos com termos da moda. Como ensina a minoria de 5% que realmente alcança êxito, a virada exige focar em dores cirúrgicas, migrar do mero comando improvisado para a engenharia de contexto e manter o servidor rigorosamente no leme das decisões estratégicas. O algoritmo deve triar, organizar e acelerar; o discernimento ético e decisório permanece humano.

Reinventar o Estado exige desapegar do fetiche tecnocrático e abraçar a reengenharia de processos com transparência e responsabilidade. O futuro da governança não pertence a quem acumula licenças de software, mas a quem tem a audácia de transformar rotinas e entregar justiça em tempo hábil.

Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.

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