O desenho A Caverna do Dragão era transmitido às 11h40min, de segunda a sexta, sem muito atraso. Toda uma geração corria para não perder o ônibus na volta da escola e chegar em casa a tempo desse evento canônico para os adolescentes submetidos ao relógio. A Sessão da Tarde também exigia esforço: era preciso concluir as lições de casa logo e rapidamente, conquistando a alforria para ligar a televisão pouco antes do meio daquele filme repetido pela décima vez.
Os jornais jogados por sobre o muro de casa também tinham um horário rigoroso. Não passava das seis da manhã, e, só então, ao cidadão era dada a chance de saber a cotação do dólar, o nome do novo ministro da economia ou os resultados de vestibulares e concursos públicos. Não adiantava espernear. Aliás, não havia quem pudesse imaginar um atalho para o tempo. Esperar ou desesperar eram as únicas opções.
O tempo era controlado pelo relógio. E só. Ansiedade, penso eu, era uma palavra que existia apenas no dicionário, e mesmo assim para indicar coisas prazerosas: ansiedade pelas férias, pelo Natal, pelo aniversário. Ansiosos, no máximo, bebiam um chá de camomila para acalmar os nervos enquanto aguardavam, resilientes e sentados, a hora certa do Jornal Nacional, que, lembro bem, anunciava a hora logo no início: oito horas!
Esse tempo passou. O relógio é decorativo. O tempo é de cada um. Hoje, somos uma geração sob demanda. É só chamar, é só clicar que A Caverna do Dragão começa imediatamente, sem precisar correr. Está tudo na nuvem. A temperança, que assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade, não é mais tão necessária na prática cotidiana.
Eu quero, eu posso, eu consigo. Perderam-se os limites do tempo e, com eles, as fronteiras do desejo imediato e do instinto irrefreável. Já falei aqui sobre a “Síndrome de Gabriela”. É disso que falo outra vez, agora em outra língua, como um apelo à moderação e à sobriedade nas tratativas humanas e no cumprimento do dever de cada dia.
A temperança é o suspiro diante da ofensa. É o silêncio de quem espera o ônibus e se submete aos reveses da vida com modéstia, submetendo as vontades ao precioso tempo que nos resta. A temperança é o que tínhamos. De pé, com os braços para trás, esperando o relógio passar arrastado, num exercício de submissão que fortalece a alma e forja indivíduos humildes e fortes.
O tempo certo de reagir, com o espírito equilibrado e o coração em paz, é o fruto saboroso da temperança. O tempo é sempre um bom aliado, e aquele que tarda nas reações age com acerto e raramente se arrepende.
Até breve.









