Por formação de engenheiro e por gostar de matemática e estatística, costumo olhar as pesquisas eleitorais além das manchetes. Sempre que possível, leio questionários, cruzamentos e páginas metodológicas. Mais do que saber quem tem 35% ou 40%, procuro entender por que o eleitor escolhe alguém — e, principalmente, por que rejeita outro.
Esse talvez seja um dos fenômenos mais importantes das eleições brasileiras recentes: muita gente não vota movida por entusiasmo, mas por comparação e rejeição.
Pesquisa Datafolha divulgada em agosto de 2026 mostrou que 30% dos eleitores dizem escolher um candidato principalmente para impedir a vitória de outro. No mesmo levantamento, os dois líderes da disputa presidencial apresentavam rejeição de 45% e 46%. Ou seja, quase metade do eleitorado declara que não votaria em cada um deles de forma alguma.
Surge então um paradoxo. No primeiro turno, o eleitor teoricamente escolhe o candidato que considera melhor. No segundo, quando restam apenas dois nomes, milhões passam a perguntar: “Qual deles é o menos pior para mim ou para o país?”
A história recente ajuda a entender essa sensação. Em 2014, Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por 51,6% a 48,4%. Em 2018, Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad por 55,1% a 44,9%. Em 2022, Lula venceu Bolsonaro por apenas 50,9% a 49,1%.
Quanto mais apertado o resultado e maior a rejeição dos finalistas, maior tende a ser a frustração da parcela da sociedade que se sente pouco representada.
O chamado “voto útil” reforça esse comportamento. Perto da eleição, parte dos eleitores abandona sua primeira preferência para apoiar quem julga ter mais condições de derrotar um adversário. É legítimo e faz parte da democracia. Mas, quando o voto passa a ser predominantemente contra alguém, e não a favor de um projeto, a eleição corre o risco de se transformar num plebiscito de rejeições.
Não vejo solução mágica, nem creio que apenas mudar o sistema eleitoral resolva o problema. A primeira responsabilidade é do próprio eleitor: tentar votar mais pela razão do que pela emoção. Em vez de perguntar somente “de qual candidato eu gosto?”, talvez devêssemos estabelecer alguns critérios objetivos.
Quem demonstra maior capacidade de montar uma boa equipe? Quem tem experiência para decidir em momentos de crise? Quem apresenta propostas economicamente viáveis? Quem respeita as instituições? Quem consegue dialogar com diferentes setores da sociedade? Quem consegue governar com mais ética, dando bons exemplos? Quem oferece melhores condições para o país crescer, gerar empregos e melhorar educação, saúde e segurança?
Também cabe aos partidos apresentar candidatos capazes de construir pontes, e não apenas fortalecer suas próprias torcidas. A polarização pode mobilizar militâncias e até ganhar eleições, mas dificilmente constrói, sozinha, um projeto nacional duradouro.
Talvez o desafio brasileiro seja justamente este: recuperar o voto de convicção. No primeiro turno, escolher o melhor. E, se houver segundo turno, não se resignar simplesmente ao “menos pior”, mas comparar com serenidade qual dos dois tem melhores condições de governar para todos — inclusive para quem não votou nele.
Democracia não é apenas escolher quem vence. É escolher, com responsabilidade, quem terá nas mãos decisões que afetarão a vida de milhões de pessoas.
E, apenas para sua reflexão pessoal: nas eleições presidenciais de 2026, você já definiu seu voto para o primeiro turno? E, se houver segundo turno, você já sabe em quem votaria?









