Uma dor na mandíbula, no rosto ou até mesmo nos dentes nem sempre tem origem odontológica. Embora cáries, inflamações, problemas musculares e alterações na articulação da mandíbula sejam causas muito mais comuns, em algumas situações o desconforto pode estar relacionado ao coração.
Isso acontece por causa da chamada dor referida, quando um problema em determinada parte do corpo é percebido em outra região. No caso de alterações cardiovasculares, a dor pode se espalhar para braços, costas, pescoço, mandíbula e face.
A American Heart Association considera dor ou desconforto na mandíbula um dos possíveis sinais de infarto, principalmente quando aparece junto com sintomas como pressão ou aperto no peito, falta de ar, suor frio, náusea, tontura, fraqueza ou mal-estar.
“Quando a avaliação não encontra uma causa odontológica compatível com a intensidade da dor, é necessário ampliar a investigação. Uma dor nova, difusa, acompanhada de falta de ar, suor frio, náusea ou pressão no peito não deve ser tratada apenas como dor de dente”, alerta o cirurgião-dentista e professor Nivaldo Vanni, mestre em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial.
Como o coração pode causar dor na mandíbula?
O sistema nervoso recebe sinais de diferentes regiões do organismo por vias que podem se encontrar. Por isso, nem sempre o cérebro consegue identificar com precisão de onde vem determinado estímulo doloroso.
É esse mecanismo que pode fazer uma alteração cardíaca provocar desconforto na mandíbula, no rosto ou até em determinados dentes. Estudos científicos já registraram casos de doenças coronarianas com manifestações de dor orofacial.
Isso, no entanto, não significa que toda dor de dente ou na mandíbula seja um sinal de problema cardíaco. Cáries, inflamações, fraturas, disfunções temporomandibulares, dores musculares, apertamento dos dentes e alterações nervosas continuam sendo causas muito mais frequentes.
O alerta aumenta quando a dor é nova, difícil de localizar, não encontra uma explicação odontológica ou surge acompanhada de outros sintomas.
Que tipo de dor merece atenção?
A dor relacionada ao coração pode ser descrita como pressão, peso, aperto, ardência ou queimação. Ela pode atingir a mandíbula, o pescoço, o rosto ou mais de um dente ao mesmo tempo.
Em alguns casos, o desconforto aparece ou piora durante esforço físico, como caminhar ou subir escadas, ou em situações de estresse. Também pode surgir de forma repentina durante o repouso.
Já uma dor de origem odontológica costuma estar relacionada a um dente específico e pode ser desencadeada por mastigação ou pelo contato com alimentos quentes ou frios. Essas características, porém, não são suficientes para que a própria pessoa determine a causa do problema.
Outro ponto importante é que a ausência de uma dor forte no peito não elimina a possibilidade de uma emergência cardiovascular.
Mulheres podem apresentar, além da dor ou pressão no peito, sintomas como falta de ar, náusea, dor na mandíbula ou nas costas e cansaço incomum. Idosos, pessoas com diabetes e pacientes com histórico de doenças cardiovasculares também podem apresentar sinais menos típicos.
Dentista pode identificar um possível problema cardíaco?
O papel do cirurgião-dentista, nesses casos, é avaliar se existe uma causa bucal capaz de explicar a dor. Quando os sinais não são compatíveis com um problema odontológico, o profissional pode orientar o paciente a buscar avaliação médica.
Durante a consulta, informações como histórico de hipertensão, diabetes, doenças cardíacas, uso de medicamentos e circunstâncias em que a dor começou podem ajudar na avaliação.
“Antes de realizar qualquer procedimento, precisamos encontrar uma causa bucal que realmente explique os sintomas. Quando essa correspondência não existe, insistir em um tratamento local pode atrasar a identificação do verdadeiro problema”, afirma Nivaldo.
Por isso, procedimentos como tratamento de canal ou extração não devem ser realizados apenas porque o paciente sente dor na região dos dentes. É necessário que exista uma alteração odontológica que justifique a intervenção.
Quando chamar o Samu?
Uma dor repentina na mandíbula, no rosto ou nos dentes merece atendimento de emergência quando vem acompanhada de pressão ou dor no peito, falta de ar, suor frio, náusea, tontura, fraqueza ou mal-estar.
A orientação do Ministério da Saúde é acionar o Samu pelo número 192 diante de uma suspeita de infarto ou procurar imediatamente uma unidade de emergência.
A recomendação é não esperar a dor passar e não dirigir sozinho até o hospital. Em uma possível emergência cardíaca, a rapidez no atendimento pode influenciar o diagnóstico, o início do tratamento e o risco de complicações.










