A professora e historiadora Adriana Campos tem chamado minha atenção para o fato de eu ter estudado, em meu livro ‘A Invenção do Coronel: raízes do imaginário político brasileiro’, muito mais os coronéis como personagens do que as estruturas políticas que suportaram o coronelismo brasileiro, como fenômeno sociológico. Eu acabei percebendo que, antes de me interessar por um processo político, sou, de fato, mais atento à construção de um personagem.
Acabei, a essa altura da minha trajetória intelectual, dando razão à minha amiga, já que acredito que o coronel, como personagem, não está esgotado na política e na vida social brasileira. Ele sobrevive nas heranças que transmitiu aos novos personagens que surgiram na cena política. Basta ver que o personalismo – traço marcante do coronel – ainda é muito forte na política, como muito bem prova a persistência da presença de líderes como Jair Bolsonaro ou Lula.
Aliás, não são os partidos ou os projetos de sociedade que marcam a atuação deles. São, antes, seus traços de caráter e de personalidade. Eles se descolam dos partidos ou dos movimentos que os fizeram surgir na vida política e se instituem como atores que dominam processos.
Se formos para a cena política capixaba atual, podemos dizer o mesmo dos governadores e ex-governadores Paulo Hartung, Renato Casagrande ou Ricardo Ferraço, que marcam seu lugar nos processos eleitorais por seus atributos pessoais, mais do que por seus projetos de sociedade ou por sua vinculação partidária. Os brasileiros votam em pessoas, escolhem nomes, gostam de gestos musculosos e discursos fortes.
Elaborei essas reflexões enquanto lia o interessante livro de memórias de Wenceslau Braz, nosso presidente da República entre 1914 e 1918, intitulado Esboço de Minha Vida Política, escrito para a sua família, com as passagens de sua vida pública que ele julgava dignas de serem lembradas por seus descendentes. Como ele foi longevo, morreu em 1966, foi escrevendo aos poucos e ao longo dos anos.
As memórias do ex-presidente não têm o intuito de mostrar os embates partidários que enfrentou, nem de chamar a atenção para o estadista que foi, como costumam fazer os políticos já longe do poder. Antes de tudo, quis mostrar um homem ponderado, equilibrado e conciliador. Um político que evitava enfrentamentos e honrou a fama dos mineiros na astúcia política. Foi presidente de Minas Gerais antes de ser do Brasil e teve toda a sua vida política formatada no território cultural das Minas Gerais.
Mesmo sem entrar em grandes detalhes da vida política e partidária de sua geração, vemos como os movimentos dos velhos coronéis na Primeira República eram todos marcados por fortes presenças individuais. Não há menções a movimentos sociais, a revoltas populares, mesmo sabendo que, em sua gestão, ocorreram as grandes greves puxadas pelos anarquistas em 1917, a Revolta da Chibata – que ele massacrou com impiedade – e até mesmo a participação na Primeira Grande Guerra Mundial. Os casos ficam restritos aos gabinetes das grandes autoridades.
Os nomes que surgem são os de Rui Barbosa, Arthur Bernardes, Delfim Moreira e outros contemporâneos seus, aos quais se refere por suas destacadas posições públicas. As mulheres são sempre citadas por suas qualidades de boas esposas, que cuidam da casa e da educação dos filhos. Quase todos os casais tinham muitos filhos, grandes personagens das sombras, dos espaços invisíveis de poder, o que era, aliás, bem típico do mundo dos coronéis. As mulheres ainda não participavam da vida pública em nossa sociedade.
O Brasil que caiu no colo de Wenceslau Braz, o político mineiro provinciano e astucioso, era predominantemente agrário, estruturalmente concentrador de terra e renda, que só abolira a escravidão havia 26 anos, administrado por um consórcio de oligarquias regionais em constante conflito e disputa, e tutelado por militares positivistas e golpistas. Era, portanto, uma gestão feita por poucos, de uma democracia ainda incipiente; por isso, os atributos de caráter contavam tanto. Hoje, distantes desse mundo e mergulhados em maior complexidade, ainda continuamos com os traços do personalismo.
Um outro detalhe desses mesmos coronéis era o grande espírito empreendedor privado. O próprio Wenceslau fundou a Companhia Industrial Sul-Mineira e a ela retornou ao fim de sua presidência. A companhia acabou por criar um banco e uma empresa fornecedora de energia elétrica, mostrando o espírito criativo naquela altura do nosso capitalismo. Os coronéis também eram portadores do progresso.
Enfim, trata-se de um trabalho original para entender como funcionavam os coronéis no apogeu de seu poderio e também para vermos os principais traços que deixaram marcados até hoje no imaginário social brasileiro.









