Retatrutida leva pacientes a perder até 25 kg em novos estudos

A retatrutida, medicamento ainda em fase de pesquisa, levou pacientes a perder até 25 kg, segundo novos estudos de fase 3 conduzidos pela farmacêutica Eli Lilly, que também fabrica o Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida.

Diferentemente da semaglutida e da tirzepatida, que atuam em um ou dois receptores hormonais, a retatrutida é um agonista triplo. Ela ativa simultaneamente os receptores dos hormônios GLP-1, GIP e glucagon, envolvidos na regulação da fome, da saciedade, da produção de insulina e do gasto energético.

A retatrutida ainda é um medicamento em investigação e não pode ser comercializada. A Eli Lilly planeja submeter um Pedido de Licença de Produto Biológico para retatrutida à FDA (a Anvisa dos EUA) no 1º trimestre de 2027.

O estudo TRIUMPH-3 avaliou 1.949 adultos com obesidade grave e doença cardiovascular estabelecida, com ou sem diabetes tipo 2.

Após um ano e oito meses, participantes tratados com retatrutida perderam, em média, 23,9 kg, o equivalente a 21,6% do peso corporal, na dose de 9 mg e 25,3 kg (22,6%) na dose de 12 mg. O grupo placebo apresentou redução média de 3,5 kg (3,2%).

Além da perda de peso, a dose de 12 mg foi associada à redução de diferentes fatores de risco cardiovascular. Segundo a empresa, os participantes apresentaram diminuição média de triglicerídeos, colesterol ruim, pressão arterial, circunferência abdominal e da proteína C-reativa ultrassensível, marcador relacionado à inflamação.

Entre os efeitos colaterais relatos predominaram diarreia, náusea, constipação e diminuição do apetite.
O estudo TRIUMPH-2 incluiu 1.152 adultos com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2, uma população com maiores dificuldades para perder peso.

Na dose de 4 mg, os participantes perderam, em média, 13,5 kg, o equivalente a 12,7% do peso corporal. Com 9 mg, a perda média foi de 20,6 kg (19,1%). Já a dose de 12 mg levou a uma redução média de 22,5 kg, correspondente a 20,8% do peso inicial. No grupo placebo, a perda foi de 4,2 kg (4%).

Além da redução de peso, houve melhora do controle do diabetes. A hemoglobina glicada (HbA1c), principal indicador do controle glicêmico nos últimos três meses, caiu em média 1,4 ponto percentual com 4 mg, 1,6 ponto com 9 mg e 1,5 ponto com 12 mg. No grupo placebo, a redução foi de 0,2 ponto percentual.

Os efeitos colaterais mais comuns foram diarreia, náusea, constipação, redução do apetite e vômitos. A frequência desses eventos aumentou conforme a dose do medicamento.
Os participantes iniciaram o tratamento com doses menores, aumentadas gradualmente a cada quatro semanas até atingir a dose prevista para cada grupo.

Os estudos também registraram episódios de disestesia (alteração na sensibilidade, caracterizada por sensações anormais como formigamento, queimação ou dormência) e infecção do trato urinário.

“Em cinco estudos de fase 3 positivos, a retatrutida demonstrou eficácia poderosa, e acreditamos que ela pode ser uma ferramenta importante no futuro para o manejo da saúde cardiometabólica”, afirma Kenneth Custer, vice-presidente executivo e presidente da Lilly Cardiometabolic Health.

“Com os resultados positivos do TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3, agora temos o pacote de dados clínicos para apoiar submissões globais da retatrutida como potencial tratamento para obesidade, dor de osteoartrite de joelho e apneia obstrutiva do sono. Estamos ansiosos para trabalhar com os órgãos reguladores enquanto avaliam este medicamento pioneiro.”

CANETA DE RETATRUTIDA É CONTRABANDEADA DO PARAGUAI
O medicamento está em caráter experimental e, portanto, oficialmente não existe no mercado. Ainda assim, as apreensões de canetas emagrecedoras de retatrutida no lado brasileiro da fronteira com o Paraguai tornaram-se comuns.

Embalagens apreendidas em Foz do Iguaçu e vistas pela Folha de S.Paulo na sede da Receita Federal indicam a Alemanha ou mesmo o Paraguai como países de procedência da retatrutida, mas o local real de produção é incerto, afirmam os fiscais.

Enquanto a dosagem máxima da tirzepatida paraguaia custa em média US$ 85 (cerca de R$ 440), a caneta de retatrutida tem preços a partir de US$ 105 (R$ 546).

No início deste ano, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou a apreensão e proibição de todos os produtos com o princípio ativo. A FDA declarou que a retatrutida não pode ser usada em manipulação farmacêutica e não está aprovada.

Já o EMA (órgão regulador europeu), também não aprovou a comercialização da substância e emitiu um alerta relacionado ao uso de canetas emagrecedoras vendidas de forma ilegal.
A Lilly do Brasil, em comunicado à Folha de S.Paulo, afirma que a retatrutida está legalmente disponível apenas para os participantes dos ensaios clínicos.

Paulo Miranda, coordenador da Comissão Internacional da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) lista diversos riscos associados ao uso de uma medicação que ainda não está aprovada.
“Quando [as canetas] são produzidas no mercado irregular, a gente não sabe o caminho percorrido, o ambiente envasado ou o grau de pureza dessa mistura”, afirma. “Como são indicações de uso injetável, elas precisam ser produzidas e mantidas em ambiente estéril, então há um risco de impurezas e aumenta o risco de reações alérgicas e infecções.”

São Paulo, FolhaPress – Vitor Hugo Batista

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